Axé apocalíptico para ansiosos


Se o mundo estivesse na iminência de um apocalipse nuclear, estaria eu pensando em fugir na arca de Noé com meu amor? Eva, da Banda Eva, foi lançada em 1997. O muro de Berlim já tinha caído e a União Soviética não existia mais. Se meus livros de história do ensino médio estavam certos, não havia mais a ameaça de guerra nuclear que permeou as décadas anteriores.

Não consigo supor qual foi a motivação por trás da Banda Eva ao escolher gravar essa música (ela já havia sido lançada em português pela Rádio Táxi em 1983). Talvez, naquela época no Brasil, a ideia de uma guerra fosse mais lúdica do que preocupante e, portanto, passível de virar tema para um axé. 

Não foi o mesmo clima político que deve ter informado a versão original, do italiano Umberto Tozzi. Pasmem, ela é ao mesmo tempo mais nonsense e politicamente incisiva. Certo, ele fala sobre  “um mar de crianças reduzidas a bambus” (quê?) e chama a amada de “dolce polva” (romântico). Mas “minha vida é um flash para quem alisa os botões anti-atômicos” é uma frase que perde força na versão brasileira, alterada para um truncado “e minha vida é um flash, de controles, botões anti-atômicos”.

A vida se torna tão pequena com a possibilidade de destruição em massa que a única forma de se sentir grande é escapando pela ilusão do amor romântico? Li por aí que o amor romântico é uma ferramenta de opressão ao nos separar em núcleos de casais em vez de grupos de pessoas. Ele direciona o afeto para apenas alguns específicos em vez de toda a humanidade. “Sem amor, você pode salvar o mundo”.



É claro, consigo identificar esses mecanismos nessa canção absurda que por algum motivo veio parar aqui no Brasil porque sou ridícula e penso demais sobre coisas ínfimas. Tenho certeza de que uma análise política de Eva é algo de que ninguém jamais sentiu necessidade. Mas este não é um blog sério! O blog no Brasil nunca deve ser levado a sério.

Ao mesmo tempo em que eu me emociono ouvindo as duas Evas – e não, não tô falando de uma emoção “irônica”, me respeitem –, ela me desperta uma vontade de distância da história de amor proposta por Tozzi. Na Eva italiana, existe o apelo do novo na possibilidade de destruição: “Nosso amor vai nos salvar como um ovo de eternidade”, o que é a coisa mais tresloucadamente otimista que alguém poderia dizer sobre um apocalipse nuclear.



As únicas canções pop que me recordo de ouvir recentemente que mencionam a possibilidade de uma guerra nuclear, desta vez entre Coreia do Norte e Estados Unidos, são da Lana Del Rey: When the world was at war before we kept on dancing (“Quando o mundo estava em guerra antes, continuamos dançando”) e Coachella – Woodstock In My Mind (“Coachella – Woodstock em minha mente”).

Ambas são mais negativas em tom, mas também carregam mensagens esperançosas. Quer dizer, a mensagem esperançosa de que o mundo sempre esteve em guerra e as pessoas continuaram vivendo e morrendo e vivendo e morrendo e vivendo etc.

Tudo está sempre ruim, geral e objetivamente falando, e aí algumas pessoas têm sorte (e privilégio) de acabar vivendo coisas boas.  Como aquela frase do Cineasta Pedófilo Que Não Será Nomeado (ou Cineasta Que Vale Tapa Na Cara): “A vida é divida entre os horríveis e os miseráveis, e você deveria estar grato por ser miserável, porque é muito sortudo ser miserável”.

É justamente essa culpa de estar bem em um mundo todo péssimo que vejo em Coachella. Como uma jovem branca e privilegiada com diploma e carteira assinada em um país que a cada dia dá novos significados para o conceito de “cair no buraco”, consigo me identificar.

Então esse é um texto que, assim como Eva, não pretende abarcar as grandes questões da condição humana. É um texto egoísta e superficial sobre viver em uma bolha e sofrer com as questões de dentro dessa bolha. Ele não é nem mesmo necessário. Você não precisa me ler se isso não fizer sentido para você. Aliás, não leia, ou eu vou ficar com vergonha.

SAIA DESTE BLOG AGORA!!!!
Sou uma pessoa ansiosa. Às vezes acordo com o coração estranho no peito e não sei porquê. E aí me desespero porque não sei porquê. E agora estou me desesperando porque existem pessoas que sabem porquê e eu deveria ficar quieta em vez de ocupar espaço falando sobre nada.

E é verdade que às vezes eu sei porque me desespero, mas é tão pequeno que parece idiota quando saio desse estado. Eu posso passar três horas pensando obsessivamente sobre uma interação que durou quinze minutos (...ela se gabou). E mesmo depois de ter “superado”, de repente me voltam flashes quando eu menos espero da situação e a vergonha volta na mesma intensidade, ainda que mais breve.

Quando me sinto assim, faço um exercício: digo para mim mesma o que estou fazendo. Se eu entro no chuveiro, fico repetindo “estou tomando banho”. Aí me enxugo: “estou me enxugando”. E assim por diante (“estou fazendo uma colagem de fotos das mãos do Harry Styles”). Muito da minha ansiedade é dificuldade de fincar raízes, isto é, reconhecer onde estou quando estou ali.

Ter crescido com televisão, computador e celular facilitou que eu me deslocasse do meu corpo e do presente para um espaço sem corpo e sem tempo. É essa a minha versão da última astronave? Sendo abraçada por notificações no espaço de um instante? Voando além do infinito sozinha com uma tela touch screen? Quem eu levaria para a Arca de Noé: meu celular? Por que eu não posso só me apaixonar igual uma pessoa normal? Quando ter medo dos efeitos da tecnologia no meu sistema cognitivo vai deixar de ser brega? Como assim eu não posso botar a culpa na internet em vez de me responsabilizar pelas minhas ações?

Essas e outras questões você só encontra aqui. Até a próxima.




Encerrando em grande estilo porque ninguém precisa ler minhas bobagens, mas todo mundo PRECISA cantar Eva no Karaokê.

RODADA DE LINKS (minha única forma de ser rodada nos últimos tempos rs)

Participei do podcast da Glênis Cardoso, Méxi-Ap, em uma conversa sobre Orgulho e Preconceito. Se você sempre quis me ouvir falar "ahã" e "tipo" de quinze em quinze segundos, essa é a sua chance!

Falando em apocalipse e viagem pro espaço, esse ensaio visual em inglês sobre filmes B que retratam planetas habitados apenas por mulheres é 
🔝.

Mais uma grande análise minha sobre música brasileira em A cada dez palavras que eu falo onze são "me deixa em paz". E se você gosta de pesar a lombra, Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro.


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