A princesa e o prazer: relendo Meg Cabot


Semana passada, procrastinei aquilo que precisava fazer relendo os cinco primeiros volumes da série O diário da princesa. Agora, vou procrastinar escrevendo sobre eles.

O diário da princesa foi o primeiro livro pelo qual me lembro de ter me apaixonado. Eu tinha só 10 anos (lol), mas me identificava profundamente com a Mia Thermopolis, a narradora e personagem principal.

Em retrospecto, não sei se essa paixão foi tão saudável assim, porque incorporei precocemente a fixação de Mia pelos próprios peitos. Fiz minha mãe comprar um sutiã das Meninas Super-Poderosas na Riachuelo, uma forma de mostrar ao meu organismo que eu já estava pronta para receber peitos. Continuei reta como uma tábua até os 13, obviamente.

Para quem não está tão familiarizado com a literatura dos anos 2000 voltada para adolescentes (qual é o seu problema?), O diário da princesa é uma saga de onze livros em que Mia Thermopolis, uma adolescente de 14 anos, descobre ser herdeira do trono de um país fictício. Agora Mia terá que conciliar os deveres reais com a ebulição de hormônios dentro do corpo dela!

Minha primeira surpresa ao reler a série foi reconhecer o quanto ela envelheceu bem. Apesar da maior parte da história se passar entre um colégio de elite frequentado pelo 1% de Nova York e, bem, a corte de um principado europeu, a saga tem uma diversidade relativamente ampla de personagens. É sério.

Segue o batido e superficial parágrafo enumerando as minorias presentes na narrativa: o grupo de amigas de Mia é composto por Shameeka, que é negra, Tina Hakim Baba, filha de um xeique árabe com uma modelo inglesa, e mais adiante na história, o casal lésbico Ling Su e Perin. Mia também tem uma vizinha trans super fofa, Ronnie.

É claro, presença de minorias raciais e LGBT per se não tornam um livro “representativo” ou digno de interesse. Mais interessante é como essa presença (e também a ausência) é articulada no texto.

O livro traz discussões sobre racismo, luta de classes e feminismo — foi o primeiro lugar onde li a palavra "misógino". Meg Cabot, ao tratar de personagens da elite, optou por introduzir um aspecto satírico muito forte à narrativa. É aqui que aparece a influência de Jane Austen, que adorava satirizar os costumes da alta (e nem tão alta) sociedade inglesa.

Um exemplo é Lilly, melhor amiga de Mia, que transposta para 2018 seria uma Youtuber e justiceira social. Lilly tem um programa de televisão próprio, financiado pelos pais, e não há nada que ela ame mais do que protestar.

O problema é que Lilly, apesar de ter um vocabulário extenso, ainda é uma garota mimada e privilegiada que vive na bolha da Albert Einstein High School. Os dois primeiros protestos que ela promove na saga são inócuos.

Primeiro, Lilly descobre que a vendinha japonesa da esquina dá desconto de 5 centavos para os estudantes japoneses, então ela organiza um boicote contra o "racismo" (sim) da loja. No livro seguinte, Lilly tem o seu trabalho final rejeitado pela professora de inglês, então ela resolve protestar contra a "corporatização" da escola.

Outro livro que traz a marca de Jane Austen é O diário de Bridget Jones, de Helen Fielding, uma adaptação moderna de Orgulho e preconceito. Lançado em 1996, Bridget Jones foi o best-seller pioneiro do gênero que ficou conhecido como chick lit* (ou literatura “mulherzinha”), que foca em mulheres brancas de classe média à procura de sucesso profissional e amor. É uma forte influência para O diário da princesa, desde ao formato até um dos conflitos principais vividos pelas personagens-narradoras: sou uma má feminista?

Tanto Bridget quanto Mia negociam os próprios desejos e inseguranças, que reconhecem como patriarcais, com a imagem a qual elas acreditam que deveriam aspirar: a tal da mulher "forte e independente".

É um conflito que faz sentido para as mulheres brancas e gringas dos anos 90, que colheram os benefícios do movimento feminista dos anos 60 e 70, cresceram em meio ao backlash dos anos 80 e depois viram o feminismo retornar à cultura pop, seja via riot grrl ou Spice Girls.

E é um conflito que faz sentido para as meninas adolescentes e jovens adultas brasileiras de hoje, que testemunharam e participaram da explosão do “feminismo de internet”.

As mesmas questões vêm à tona: o que é feminismo e o que é apropriação capitalista? Sou uma má feminista? Existem más feministas? Posso gostar de X (insira produto cultural machista) e ser feminista?

Assim como O diário de Bridget Jones, o livro de Meg Cabot é pós-feminista, no sentido em que “apropria o pensamento feminista para propósitos não-feministas”.**

Nas narrativas pós-feministas, estereótipos de feminilidade são vistos como uma forma de exercer o poder de escolha e a própria autonomia. Por isso, o final feliz de ambos diários ainda é “conquistar o cara certo”, mesmo que os comportamentos que tornam ambas personagens infelizes não sofram alteração.

Bridget continua obcecada com o próprio peso e bebendo compulsivamente, mas pelo menos agora ela tem um Homem ao seu lado. Já Mia e Michael, o casal perfeito da série, estão longe de ter um relacionamento saudável (mas escrever sobre isso exigiria muito mais caracteres do que imagino que a maioria das pessoas com bom senso estaria disposta a ler).


Ao centro de ambas histórias está a complicada relação das personagens com prazer. Bridget sente prazer com as coisas que sabe que fazem mal para ela: álcool, cigarros, porcarias e homens imprestáveis. Mia convive com adolescentes prodígios com uma bagagem cultural acima da média, e por vezes sente necessidade de justificar sua dificuldade com exatas ou obsessão por cultura pop.

Ambas lutam com a noção de que são mulheres superficiais e se sentem pessoalmente atacadas por aqueles que julgam ser mais inteligentes, cultos ou bem resolvidos do que elas.

A luta interna das personagens ecoa a imagem confusa da literatura chick lit. Assim como as personagens nunca se sentem “suficientes”, nos livros chick lit também parece estar sempre faltando “algo” para que sejam dignos de uma atenção a construir sentido para além de gostar ou não gostar, ou em outros termos, “boa” ou “má” literatura.

Sim, é uma literatura comercial que reflete ideias misóginas. Esses são alguns dos culpados pela pecha de “superficial” que recaí sobre esses livros. Do outro lado, porém, está a nossa relação difícil com o prazer feminino, mesmo que seja o prazer da leitura.

“Quando as realidades do prazer feminino se aliam ao consumismo e capitalismo, o prazer feminino é retratado como leve, decadente e frívolo de um jeito que o consumo masculino não é”, escreve Sady Doyle em um ensaio sobre cosméticos. Certo, uma indústria que movimenta milhões, como a dos best sellers, não precisa da nossa defesa. Quem precisa da nossa atenção são as leitoras.

“Rosie, uma recepcionista de 27 anos, diz que embora ela leia muitos livros chick lit, ela joga os livros fora. É vergonhoso, ela diz. Você sente vergonha de si mesma depois de ter lido algo assim”, relata o um trecho de uma reportagem do jornal The Independent de 2002.

Um sentimento semelhante me inspirou a terminar com Meg Cabot, na adolescência. Doei minha coleção de livros dela, uma tentativa de renovar a minha identidade. Agora eu seria uma leitora séria. Talvez o mesmo sentimento tenha me levado a começar esse exato texto anunciando que eu estava “procrastinando” em vez de, não sei, engajada em escrever algo com que me importo.

No quarto livro de O diário da princesa, Mia sofre porque está cercada por pessoas talentosas enquanto não vê nada de especial em si mesma. Ela está tão acostumada a enxergar o próprio prazer como algo digno de culpa que não reconhece seu diário como um projeto criativo. Porque Mia gosta de escrever, ela nem consegue conceber a escrita como um talento.

Essa foi a coisa que mais amei em ter relido O diário da princesa: Meg Cabot me faz pensar na escrita e na leitura em termos de prazer e não de produtividade.

Ok, é um pouco estranho tirar essa conclusão a partir do trabalho que alguém que publicou mais de oitenta livros. Mas ao ouvir um podcast com a Meg, o que mais me tocou foi o fato de ela escrever por prazer. Ela diz que escreve até quando está de férias, só pra se divertir! E que se não tivesse se tornado uma escritora profissional e publicada™, ela continuaria escrevendo mesmo assim. Talvez por isso os livros da Meg Cabot sejam tão divertidos de ler.

O combo de escrever na internet e ser uma pessoa ansiosa me fez criar essa associação de escrever com produtividade, isto é, escrever-para-publicar. Desde que comecei a trabalhar, tenho menos tempo para escrever, então espero que o tempo que eu de fato gaste com isso “traga resultados”.

Quando comecei a tentar manter um diário (um projeto que se tornou mais um semanário ou mensário, diga-se de passagem), a minha principal dificuldade tem sido me deixar escrever. Se é algo que não é digno de ser lido por outros, nem informativo, nem original, por que eu me daria o trabalho de escrevê-lo?

Agora que outros recursos já me permitem documentar a minha vida, como o Instagram e o Twitter, escrever como exercício ou ato intimista se tornou banal demais. Mas isso deveria ser um impedimento?

Em uma resposta às críticas ao chick lit, Jenny Colgan afirma que o gênero foi libertador para ela enquanto escritora: “Eu não conseguiria escrever um romance literário - e daí? Isso significa que eu não deveria escrever mais nada?”.

Quando era pré-adolescente, eu escrevia LIVROS para passar o tempo. Nessa época, eu estava mais interessada nas realidades que poderia criar escrevendo do que em me levar a sério enquanto escritora. Reler Meg Cabot, acima de tudo, me inspira a tentar me reapaixonar pela minha imaginação. Obrigada, Meg.✨


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Mais sobre livros em Bibliomaníaca: glamour e codependência e Porque eu amo a tetralogia napolitana, de Elena Ferrante.  

*Curiosamente, o termo chick lit foi apropriado de uma coletânea de contos americana feita por mulheres e batizada dessa forma ironicamente, em 1995. De alguma forma o termo pulou para as resenhas de Bridget Jones nas páginas dos jornais e virou o que virou. Mais sobre essa história em Chick lit, the new woman's fiction.

**A definição é de Tania Modleski, em Feminism Without Women: Culture and Criticism in a “Postfeminist” Age, mas encontrei essa citação no livro Soft in the Middle: The Contemporary Softcore Feature in Its Contexts, de David Andrews.

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