Escolher o curso certo, síndrome do impostor e Manic Pixie Dream Girls




Alô, Benzinho é a coluna que te socorre dos sofrimentos do coração jovem. Para enviar perguntas, vem cá.


Como parar de me preocupar em não ser a pixie dream girl* que os caras projetam em mim?


Quando eu parei de me depilar, um dos meus ex (já era ex na época) disse que eu deveria voltar com a depilação porque ele achava mais bonito.

Se eu tivesse ouvido aquilo alguns anos antes eu teria ido direto pro salão de beleza arrancar os pelos do meu suvaco, mas nesse dia eu finalmente estava pronta pra aceitar o fato de que não precisava ser desejada por alguém que tinha esse tipo de opinião.

Entendi que muita gente não iria querer ficar comigo, ou iria querer, mas seria "apesar" de eu ter pelo no suvaco. E tudo bem. Porque existem outras pessoas que são como eu e que não ligam ou até mesmo preferem que os pelos fiquem exatamente onde eles estão. Eu não preciso ser unânime.

Quando você finalmente tiver certeza de que um cara que espera que você seja a Zooey Deschanel é meio tosco e não é interessante PRA VOCÊ, você vai conseguir se libertar da necessidade de conquistar a aprovação dele ou de provar que não é a projeção que ele criou.

Não tem nada de errado com você só porque você não é nem quer ser uma personagem de comédia romântica, mas com certeza tem algo de errado com um cara que espera que você se comporte como uma em tempo integral.

*Como explica a Lara Vascouto do Nó de oito"A Manic Pixie Dream Girl é aquela personagem feminina adorável – com ótimo gosto musical e pequenos defeitinhos que a deixam mais adorável ainda (como falar rápido e demais, se interessar por coisas insignificantes, ser adoravelmente impulsiva) – que existe completamente em função do protagonista homem." 


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Eu passei pro curso que quero em uma universidade boa, mas fico insegura por causa do mercado de trabalho.

Vivi os três anos do ensino médio tentando me encontrar, tinha a esperança de que aparecesse alguma vocação inusitada em alguma área aleatória do meio do nada ou uma grande intervenção divina, talvez. 


Não foi por não saber o que queria, mas por desejar um ofício menos incerto: se ser professor já é foda, imagine ser professor de sociologia.

Meus pais estão em uma situação financeira complicada e eu não acho que vá melhorar muito, nós nunca vamos passar fome ou ficar sem casa, mas eu não posso contar com eles se a minha carreira der errado.

Também sei que não vou passar fome, logo eu vou poder dar aulas de inglês e também penso em fazer um curso de bartender.

O problema é que não quero gastar quatro anos da minha vida com uma coisa que não me trará retorno, tenho medo principalmente pelo momento político em que nos encontramos.


Parabéns! Com certeza não é fácil passar no vestibular e isso merece ser comemorado. Agora vamos à sua dúvida.

Sabe essa vocação que você diz estar esperando "aparecer"? Ela não existe. Picasso não virou um "gênio" da pintura porque ele começou a pintar na infância, mas porque ele continuou pintando desde então. Porque o que torna a pessoa boa naquilo que ela faz é a prática e o interesse, e não uma inspiração que vem do nada.

Você só vai descobrir o que você gosta de fazer tentando. Você só vai saber se sociologia é o curso certo se fizer a matrícula e assistir às aulas. Talvez não seja mesmo. E nem precisa ser. Você é jovem e tem tempo pra tomar outras decisões.

Dinheiro, como você deixou claro, é algo que precisa ser levado em consideração. Conversei com uma amiga que está terminando o curso de sociologia e ela foi sincera: vale a pena pra quem quer ter carreira acadêmica. É esse o seu caso?

Outra coisa importante de se ter em mente é que não necessariamente você vai trabalhar na área do seu curso e isso não é sinal de fracasso. Conheço pessoas formadas em audiovisual e jornalismo que dão aulas de inglês, uma designer que virou tradutora e atriz, alguém que estuda cinema mas trabalha como designer, DJ e produtor de festas, uma jornalista que depois de dez anos numa grande emissora resolveu cursar direito...

Ser formado na área na qual você deseja trabalhar com certeza é uma vantagem, mas a vida profissional de muitos não necessariamente segue esse caminho linear e nem por isso eles fracassaram ou "desperdiçaram tempo".

E, pra muita gente, não necessariamente o trabalho delas é aquilo que elas amam fazer! Conheci um DJ e produtor cuja fonte de renda principal era o trabalho num banco. Esse pode ser um caminho para você também. Aliás, muitas pessoas se sustentam com empregos "chatos" e aí usam o tempo livre delas para tocar os projetos que amam (olá). A Meg Cabot passou dez anos trabalhando num alojamento de uma universidade enquanto escrevia os livros que um dia ela iria conseguir publicar.

Esse período de transição do ensino médio para o ensino superior parece ser o GRANDE MOMENTO DEFINITIVO da sua vida, mas viver é muito mais um longo processo com vários pequenos momentos. Você pode trocar de curso. Você pode largar a faculdade. Você pode se encontrar enquanto professora de inglês. Você pode concluir sociologia e prestar mestrado. Não importa o que aconteça, você vai encontrar uma forma de ficar bem, apesar das frustrações que sempre surgem. Boa sorte! ❤

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Tenho plena consciência de que "amor da vida" é bobeira, mas tenho um ex namorado que meio que sinto que foi ~~o amor da minha vida~~.

A gente terminou já fazia mais de um ano, mas se falava sempre.

Eu estava feliz de ser só amiga dele, porque ele é ótimo e amo conversar com ele.

Só que aí, a gente se encontrou um dia e ele me contou que começou a namorar (monogamicamente, a gente era poliamor).

Depois, ele não respondeu dois memes que mandei e nunca mais falou comigo.

Entendi como uma mensagem de que ele não queria mais falar comigo. Só que tô sofrendo bastante.

De certa forma, parece que tudo que a gente viveu foi mentira se com a primeira menina que ele se envolve ele não quer mais ser nem meu amigo.

Ele não é o seu amigo, ele é o seu ex-namorado. Talvez ele seja seu amigo no futuro. Ou talvez nesse futuro você nem queira mais ter contato com ele, não por mágoa, mas por indiferença mesmo.

Mas agora vocês não são amigos e repetir essa mentira pra você mesma é uma estratégia pra continuar alimentando esse sentimento de que ele é o amor da sua vida.

Imagino que alguma parte de você (e de todos nós, né?) ainda acredita que amor "dura para sempre". Por isso a dificuldade de reconhecer que o fato de ele ter te amado (de verdade! loucamente! ardentemente!) não impede que ele não te ame mais.

Não acho que o que vocês viveram não foi "de verdade" porque ele se afastou. Esse afastamento pós-término é necessário para seguir em frente. Tente ver esse momento como uma oportunidade pra você recriar sua vida sem o seu ex.

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Toda vez que eu consigo o que eu queria, eu logo penso "não era tão difícil assim".

Eu passei em um vestibular concorrido com notas ótimas.

Passei anos pensando "isso é muito difícil pra mim, não vou conseguir", mas depois que eu consegui logo pensei que era algo extremamente fácil e que meu esforço foi mínimo.

Eu sinto que sou uma farsa. Sinto que por mais que eu estude, eu não sei nada, só estou fingindo que sei.

Não consigo reconhecer meu esforço nas coisas (só sei que ele existe porque meus amigos e familiares comentam, mas não sinto que o verdadeiro crédito da coisa esteja em mim).


No ano passado eu me inscrevi num processo seletivo de uma empresa de produção de conteúdo. Para passar, eu tinha que escrever um texto sobre "síndrome do impostor". Fui reprovada, mas aprendi algumas coisas interessantes no processo.

1) O termo foi cunhado nos anos 70 por pesquisadoras americanas, em um estudo que investiga os sentimentos de mulheres bem-sucedidas em relação ao próprio sucesso profissional.

2) Pesquisas da mesma época apontam que mulheres tendem a atribuir suas conquistas a "sorte" ou "esforço temporário", em vez de reconhecê-las como resultado das suas habilidades.

3) Mulheres costumam ter expectativas mais baixas do que homens em relação à própria performance profissional.

4) Pesquisadores atribuem esse comportamento ao fato de a sociedade dar mais valor ao trabalho de homens, o que leva mulheres a internalizarem essa descrença na própria capacidade, ao mesmo tempo em que sentem necessidade de provar o contrário (sentimentos são complexos!).

5) Mulheres de sucesso costumam ser representadas como excessivamente ambiciosas, negligentes com familiares e pessoas amadas, frígidas, reprimidas, ameaçadoras e agressivas. Mulheres são ensinadas a valorizar a própria capacidade de serem humildes, emocionalmente provedoras e gentis. Ou seja rs.

6) Algumas feministas acreditam que o termo “síndrome do impostor” foi usado pela psicologia pop para mascarar as questões políticas que levavam mulheres brancas e negras e homens negros a se sentirem inseguros.

7) Eu sei disso tudo e AINDA ASSIM me sinto incapaz e não reconheço as minhas próprias conquistas. continuo oscilando entre ambições para o futuro, frustração por não ter “chegado lá” (embora eu não saiba o que é “lá” exatamente), desprezo ou indiferença pelo que já consegui, dúvidas da minha capacidade e, bem, preguiça.

8) Não sei como sair daqui. Se um dia descobrir o segredo, eu te conto.

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Já teve a experiência de tentar superar alguém mas parece que nada funciona pra isso acontecer de fato?

O pior é que não sei se já superei ou se meu estado mental (depressão) fica me sabotando porque ele sempre me faz sentir culpa por enxergar a realidade de um jeito distorcido etc.

Aí tem a questão também de que o término foi bem complexo pelo relacionamento ser complicado. A pessoa que eu namorei tem um problema muito forte com a própria existência e isso interferiu em nossa relação.

Tô numa situação muito complicada da minha vida e necessito muito de alguém pra desabafar, mas não quero mais fazer isso com meus amigos porque acho que eles já cansaram das minhas lamentações.


Não tenho depressão, então não posso te aconselhar em relação a isso, porque eu só seria capaz de dizer algo simplista que você provavelmente já sabe.

Eu posso falar sobre coração partido.

A resposta simples para a sua pergunta é: sim, já tive. E passou. Passou porque a vida acontece e sentimentos acabam. Mas também passou porque eu decidi que queria passasse e me esforcei para que passasse (eu sou bem partidária da meritocracia emocional, desde que sejam reconhecidas as suas limitações, é claro).

A resposta difícil é: eu passei seis meses sofrendo por um cara que não tinha nada a ver comigo e com quem se eu tivesse me relacionado por mais tempo teria sido uma força destrutiva na minha vida. Disse milhares de vezes para mim mesma que eu “queria” superar ele, mas no fundo eu ainda não queria. Porque faz parte do processo de término não querer superar. Querer continuar gostando da pessoa. Mesmo sofrendo. Mesmo reconhecendo que fez sentido acabar.

Eu realmente QUERIA sofrer. Se não podia ficar com aquela pessoa, pelo menos eu podia continuar gostando dela, revivendo momentos que já tinham acontecido e imaginando momentos que nunca iriam acontecer. O ser humano é doido assim.

É bom e saudável e natural passar por isso. Mas se você me mandou essa mensagem é porque uma parte de você começou a falar mais alto, e essa parte está dizendo que você NÃO QUER mais essa dor. Aí você pode se agarrar a essa parte e transformar ela na sua amiga sábia que, toda vez em que você adotar algum comportamento que te mantém presa a essa pessoa, vai te falar: “Ei, pare. Vai fazer outra coisa. Agora.”

Um dia mágico vai bater aquela onda forte da superação e você não vai mais estar a fim dessa pessoa. Você pode ficar desconfortável e insegura perto dela (eu ainda fico), mas você não vai mais querer ter qualquer tipo de relacionamento romântico com ela. É provável que você não se lembre desse dia mágico. Eu não lembro do meu.

Mas a resposta mais chata, e que eu não queria que fosse verdade, é: eu passei seis meses sofrendo por esse cara, me relacionei com outras pessoas, decepcionei algumas delas e fui decepcionada pelas outras, encontrei meu atual namorado, que após um começo de namoro sofrido virou um dos relacionamentos mais saudáveis da minha vida até agora.

Esse relacionamento vai acabar. E de vez em quando me pego sofrendo por esse término que ainda não aconteceu. Sei que vou sofrer bastante quando de fato acontecer. E aí, depois de sofrer bastante, vou conhecer outras pessoas. E vai começar tudo de novo. Etc. É isso.

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Me ensina a ter autoestima. 

Eu acho que já consegui aceitar e até gostar do meu corpo, mas eu não consigo gostar do meu rosto de jeito nenhum.

Acontece que eu tenho olhos "caídos" e com uma pelezinha extra no côncavo e eles fazem eu me sentir muito feia.

Eu cheguei a ficar quase dois anos passando delineador todo santo dia, porque achava que ele levantava o olhar. 

Se eu pudesse fazer uma cirurgia eu faria, mas eu não tenho dinheiro e minha mãe acha desnecessário, além de dizer que com o tempo a "pelezinha" voltaria.


Eu não posso ensinar alguém a ter “autoestima”. Um dos motivos pelos quais eu faço terapia é minha baixa “autoestima”. Vou lutar com isso provavelmente para sempre. Vou passar o resto da minha vida odiando a mim mesma e me esforçando para atravessar esse sentimento para produzir coisas bonitas e me conectar com as pessoas.

Mas o que eu posso te dizer sobre a relação entre “autoestima” e “beleza” é o seguinte:

Meus peitos são pequenos e meus mamilos muito maiores do que eu gostaria. Meu pé é grande e nem um pouco delicado. Meu nariz é grande, pontudo e tem poros largos que vivem entupidos de cravos. Meu corpo é ossudo e angular. Minha vagina é roxa e tem lábios grossos que irrompem do meio das minhas pernas. Eu tenho um gogó maior do que o de muitos caras.

Tudo isso faz parte de mim. Assim como minha inteligência, meu senso de humor, os livros que eu li, os filmes que assisti, as bandas que garimpei pela internet quando era adolescente, os pratos que aprendi a cozinhar, minhas posições políticas, as roupas que eu escolho vestir, minha capacidade de ouvir e empatizar com outros, meu jeito de escrever, e as partes do meu corpo que eu de fato gosto: meu cabelo, minha boca, minhas clavículas.

Você tem as pálpebras caídas. você sempre vai ter pálpebras caídas. É uma parte de quem você é. Você não precisa gostar dessa parte. Mas você pode reconhecer as outras partes que te tornam uma pessoa interessante para você mesma e para os outros.

E talvez, um dia, você pare de ODIAR suas pálpebras e passe a ser indiferente em relação a elas. Porque elas são só pálpebras. Que servem pra proteger seus olhos de poeira, objetos estranhos e suor. Elas não precisam ser "bonitas" de acordo com a sua ideia do que seriam pálpebras bonitas, elas já estão ocupadas fazendo outras coisas, muito obrigada.

Te garanto que se suas pálpebras magicamente mudassem amanhã você ficaria obcecada por outro “problema” do seu corpo. Porque o verdadeiro problema não são suas pálpebras, e sim essa sensação que te diz não só que você é imperfeita, mas que você precisa ser perfeita.

Você não precisa ser perfeita. Porque você nunca vai ser perfeita. Porque ninguém é. Porque é humanamente impossível. Imagens podem ser perfeitas. Pessoas não.

Ler suas dúvidas foi algo que mexeu muito comigo porque me reconheci no que você escreveu. E ao me reconhecer em você vejo, mais uma vez, o quanto é desnecessário esse esforço pela perfeição física.

Essa obsessão nos rouba de tempo, dinheiro e emoções que estariam muito melhor empregadas em outras áreas. Talvez o caminho para a autoestima em relação à beleza não comece pela sua aparência mas fora dela. Essa é a trilha que eu tenho tentado seguir, e talvez você tenha interesse em me acompanhar nela. Fica aqui o convite.✨

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As perguntas recebidas foram editadas para ficar mais concisas.

Mais conselhos mais ou menos sábios em Alô, benzinho: caras mais velhos, relacionamento com o ex e abrir o relacionamento e Alô, benzinho: paixão por gringo, ejaculação precoce e carência pós-término.

Você já leu meu texto sobre dar conselhos? Vai lá: A arte perdida de dar conselhos.

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