A arte perdida de dar conselhos

Imagem da revista brasileira "Eu sei tudo", criada em 1917
Eu gosto de dar conselhos porque, como diz o clichê, minha vida emocional é uma bagunça e é muito mais fácil se distrair organizando a bagunça dos outros. É algo que só um “tolo egomaníaco” aceitaria fazer, diz o Hunter S. Thompson em uma carta a um amigo, logo antes de preencher vários parágrafos com, bem, conselhos.

Pessoas que gostam de dar conselhos são ao mesmo tempo muito empáticas e muito egocêntricas. Digo isso porque tenho uma coluna de conselhos, Alô, Benzinho. Não gosto de reler meus conselhos, porque eles parecem palavras finais sobre a vida de pessoas que não conheço e cujos dilemas não consigo de fato compreender. As respostas se encolhem diante das possibilidades evocadas pelas perguntas.

Já recebi perguntas que demorei meses pra responder. Fiquei encarando e encarando e o que vinha à minha cabeça é: não faço ideia do que dizer. Não sei como resolver essa situação. Não saberia resolver se acontecesse comigo. O pior é que mesmo nas situações em que eu saberia como resolver, se elas acontecessem comigo, eu de repente iria parar de saber.

Ao dar conselhos, crio motivações para os personagens, identifico o conflito, atribuo uma resolução e construo um desfecho. É claro que quando estou digitando faço um esforço para sair de mim mesma e ir até o outro. Mas esse outro é minha ficção, elaborada a partir das minhas experiências e das poucas palavras que me ofereceram como inspiração. Eu saio de mim para acabar em mim mesma (sim, eu tenho sol em Leão).

Pequenas delicadezas, Cheryl Strayed

Lendo Pequenas delicadezas, da Cheryl Strayed, me deparei com uma nova forma de dar conselhos. Pequenas delicadezas é uma coletânea de textos da coluna de conselhos Dear sugar, do site gringo The Rumpus, conduzida então anonimamente pela Cheryl Strayed, a mesma autora de Livre (Wild).

Cheryl não diz apenas “faça isso”, ela conta situações semelhantes que viveu. Ela mostra: ei, eu passo por isso também. Eu também não sei direito o que eu estou fazendo com a minha vida. E ela diz “faça isso”. Porque ainda é uma coluna de conselhos, no fim da contas.

Comecei a tentar aplicar esse método às dúvidas que recebo pelo Gatinho Curioso, não por acreditar que seja uma forma de conselho mais eficaz, mas por acreditar que seja um exercício literário mais eficaz. Cheryl parece encarar as dúvidas anônimas como propostas para improvisação criativa.

As pessoas seguem conselhos? Raramente recebi respostas das pessoas que aconselhei nesses anos de blog. Acredito que não. Não me lembro de seguir conselhos na hora em que os recebi (talvez os conselhos da minha terapeuta, mas aí é porque tenho que fazer o dinheiro valer a pena).

Dar conselhos é uma arte perdida: seu objetivo presumido poucas vezes é alcançado. E também porque as palavras de aconselhamento se espalham, se perdem e só vão ser encontrada pelos seus destinatários muito tempo depois de terem sido emitidas.

Me lembro de seguir conselhos meses, às vezes anos depois de recebê-los. Eu segui os conselhos sem perceber que estava seguindo, até que uma hora me veio: “caramba, estou fazendo o que Fulano (geralmente minha mãe) me disse para fazer!”. Use camisinha! Não use drogas! Aprenda a dizer não! Coma vegetais! 

Eu sou grata pelos conselhos que recebi, e espero que as pessoas que me aconselharam tenham sido pacientes o suficiente para apreciar que uma hora acordei para a vida, mesmo que não tenha sido no momento desejado.

Sou mais grata ainda pelas pessoas que me procuram e que se sentem confortáveis o suficiente para se oferecerem a essa experiência maluca de se deixarem ser reviradas pelo olhar do outro.

Porque a coisa triste e bonita da vida é que não somos personagens. Não queremos seguir os comportamentos ditados pelos nossos conselheiros-narradores. Não queremos experiências saudáveis, amadurecimento emocional, paz. Queremos jogar a merda no ventilador e deixar ela respingar em nós, enquanto reclamamos “poxa, por que a merda está respingando em mim?”.

Deixa de Banca
Às vezes, é claro, não seguimos conselhos porque eles são péssimos. Como quando uma amiga sugeriu que eu platinasse o cabelo, ou quando insisti para que meu namorado fizesse curso de verão porque eu queria que ele se formasse mais cedo. Em alguns raros momentos somos pessoas fabulosas que têm certeza do próprio destino, ou pelo menos de que não querem seguir aquele destino aconselhado. Parabéns para a gente.

Acredito, pelo menos, que conselhos podem não funcionar para as pessoas que os recebem, mas eles sempre funcionam para aqueles que os emitem.

Quem realmente ganha com os conselhos são os conselheiros, que são obrigados a estabelecer as verdades que eles querem que sejam o norte da própria vida. São aqueles que têm a oportunidade de olhar para as experiências passadas e construir algum sentido para elas. São aqueles que conseguem criar esperança a partir do caos alheio. São os únicos que, naquele breve momento, têm o privilégio da certeza.

Se deixe ser aconselhado. Não porque você precisa, mas porque os outros precisam. É um favor. ✨

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