Incompatibilidades culinárias


Eu venho de uma linhagem de mulheres que cozinhavam para sobreviver. Elas se casavam adolescentes com homens mais velhos e preparavam comida para uma família inteira. Cozinhar era um trabalho, embora não fosse visto como tal.

Quando era criança e visitava minha família, no interior de Rondônia, minha avó preparava cuecas-viradas. É um doce de farinha e ovo, frito e polvilhado com açúcar, que não lembra em nada uma cueca virada. Mas minha avó não cozinha mais. Perdeu a graça.

Minha mãe conta do frango ao molho, servido com polenta, dos pães caseiros, das carnes armazenadas na gordura dos animais. Durante a infância dela, no interior do Paraná, se comia o que era da estação, o que vinha das árvores do quintal. Mas eu cresci nas cidades e comendo o que vinha do supermercado.

Minha mãe é a primeira contadora de histórias que conheci e algumas das histórias favoritas dela são as que envolvem comida.

Uma pena, porque apesar de ter uma mãe hábil na tradição da cozinha, eu não sabia comer. Quando criança, eu me recusava a comer arroz e feijão e colocava ketchup em tudo. Minhas comidas da infância foram: miojo com ketchup, bolinho de arroz com verduras escondidas pela minha mãe, nuggets, qualquer porcaria do McDonalds. Minha mãe, coitada, levava a culpa: “Você tem que fazer essa menina comer.”

Ao contrário do que diz a sabedoria popular, eu aprendi a comer porque parei de comer carne. Eu parei de comer carne porque vi O anjo exterminador, do Luis Buñuel. Não é um filme sobre crueldade com os animais. Mas, em O anjo exterminador, matam uma cabra porque estão com fome. Eu fiquei com pena da cabra, e no dia seguinte não quis mais comer carne. Essa também é a história de como comecei a cozinhar.

Talvez eu não achasse certo que minha mãe continuasse cozinhando para mim. Talvez eu quisesse ser independente. Eu não aprendi a cozinhar com a minha mãe, igual minha imaginação romântica gostaria que tivesse acontecido, embora minha mãe com certeza tenha me ajudado no processo com conselhos e apoio emocional. Eu aprendi a cozinhar, sinto dizer, com a internet.

Eu não era uma boa cozinheira, no começo. Alguém é? Eu tinha preconceito com sal e achava que não precisava salgar a comida. Eu não tinha paciência e cozinhava tudo no fogo alto e inevitavelmente algo acabava esturricado. Eu fervia os vegetais na água até eles ficarem moles e sem sabor.

Mas cozinhar, pelo menos, não era uma obrigação, nem um dever. Cozinhar era um novo jeito de estar no mundo. Ao contrário das mulheres que vieram antes de mim, para quem cozinhar era uma obrigação, cozinhar, pra mim, foi uma declaração de independência.

Meu vegetarianismo e, posteriormente, veganismo, arrancou minhas raízes da cozinha das mulheres da minha família. Eu não tenho receitas de família. Eu poderia recriar bolinhos de chuva ou cuecas-viradas, mas a verdade é que nunca gostei de doces sem chocolate. As mulheres da minha família e eu, é triste concluir, não temos o mesmo paladar.

Não consumir carne fez de comer e cozinhar um ato privado e não coletivo. Muitas pessoas relatam não gostar de cozinhar a não ser que haja mais alguém para comer. Eu cozinhei, por muito tempo, só para mim mesma. Aprender a cozinhar para os outros foi algo tão estressante a ponto de quase provocar uma síncope.

Cozinhar era algo tão íntimo que pra mim quase nem sempre combinou com os estágios iniciais do amor (ou do flerte desorientado), e já passei meses vendo o mesmo cara sem deixar que ele me visse comer, nem mesmo olhasse dentro da minha geladeira. Junte isso ao fato de que peso 54 kg por motivos puramente genéticos e ele provavelmente achava que eu tinha um distúrbio alimentar.

Quando morei na Itália, fiquei de caso com um italiano, M., que pediu para que eu cozinhasse algo brasileiro para ele. Lá fui eu preparar não apenas um feijoada vegana mas uma feijoada vegana para um italiano. Para quem não entendeu a gravidade da situação, acesse a conta do Twitter Italians mad at food (Italianos bolados por causa de comida).

Os feijões que consegui comprar estavam velhos, demoraram literalmente quatro horas para cozinhar. Quando M. chegou nada estava pronto, então ele me observou durante todo o processo, o que só aumentou minha ansiedade. Eu quase me cortei tentando descascar uma abóbora e M. teve que intervir para evitar um acidente, o que considerei uma pequena humilhação.

A comida não estava ruim mas também não foi memorável. Imagino também o estranhamento do coitado ao ter de comer tudo misturado no prato (lá eles costumam comer porções separadas). Eu ainda não tinha conhecimento o suficiente sobre as frescuras italianas pra saber que servir laranja com feijão era fazer o impensável.

“Você está satisfeita com o resultado?”, ele perguntou, imagino que tentando sondar se era aquilo mesmo que eu, uma mulher insana, tinha planejado servir. “Sim”, disse, num esforço de enganar a mim mesma. Era a primeira vez que M. foi lá em casa e ele não quis ficar para dormir.

Depois disso, o caso degringolou. M. era muito ocupado, um jornalista e roteirista para TV relativamente famoso, mas às vezes a negligência parecia ter motivos menos nobres.

Ele só podia me ver quando estava “passando pela minha casa”, uma desculpa que poderia ser razoável não fosse o fato de morarmos a dez minutos a pé um do outro. Depois de passar quase um mês sumido, M. me convidou para uma viagem de trabalho e eu surtei. “Não sou uma prostituta, acorda”, respondi, antes de bloquear ele no Facebook e no WhatsApp, me sentindo uma mulher muito decidida em um episódio de Sex and the city.

Ele era muito mais velho, tínhamos opiniões políticas divergentes, estávamos em fases profissionais completamente diferentes. Mas ainda assim, alguma parte de mim ainda acha que a culpa é da feijoada.

Outras refeições foram mais bem-sucedidas, com o risotto de ervilhas e menta que me remete à visita a uma mulher por quem me apaixonei, no Rio de Janeiro. Ou o ratatouille que servi para nós, o meu com molho de tomate e o dela, sem. Ela é alguém em quem continuo pensando enquanto cozinho. Recentemente fiz brownies. Lembrei dos bolinhos de morango que ela dizia preparar e que nunca provei, então coloquei morangos. Ou me lembro dela quando esquento leite de amêndoas com gengibre, cúrcuma e melado, porque seria algo que ela gostaria de tomar.

Conhecer essas minúcias do paladar dos outros é um dos  detalhes que guardo quando a paixão se esvanece. Não creio que diga algo sobre a personalidade da pessoa, ou se diz não matei a charada ainda, mas é uma informação tão inconsequente, obtida por meio da convivência, que parece conter em si o carinho que sobrevive após o término.

Recentemente encontrei um rapaz com quem vivi um romance-de-verão daqueles que começam e acabam rápido. Ele me contou sobre as brigas com o irmão mais velho, que quase sempre são a mesma.

O irmão gosta de cozinhar e quer fazer pratos elaborados, suja um monte de louça, e ao meu ex, que não cozinha, cabe limpar a bagunça. “E aí eu não quero lavar a louça porque eu preferia ter comido um miojo com atum”, ele explicou. “Comida pra mim é só uma forma de me suster, eu não ligo pro que como”.

Minha mente se abriu em uma série de brigas que teriam acontecido por causa de panelas sujas e de que, graças às circunstâncias, nós fomos poupados.  Me senti em paz. A pilha da louça suja eu encaro. Mas hoje jamais trocaria um bom prato por miojo com atum.✨


Mais de mim em O amor é uma invenção capitalista para comoditizar emoções e E contra os caracteres batalharei


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