O fascínio da bruxa

Kim Novak em Bell, book and candle
Kim Novak no filme Bell, Book and Candle (1958)
Contos de fada à parte, as primeiras bruxas que conheci foram as W.I.T.C.H., da revista publicada pela editora Abril de 2002 a 2010.

Ao contrário das bruxas que eu havia encontrado nos desenhos animados da Disney, as W.I.T.C.H. não eram assustadoras nem cruéis. Eram meninas que descobriam ter superpoderes e serem responsáveis por proteger a muralha de uma terra encantada, Kandrakar. A própria revista explorava essa pegada esotérica e costumava vir com matérias sobre wicca e trazer brindes como cristais e oráculos.

Ser  bruxa no universo W.I.T.C.H. significava simplesmente ter poderes especiais. Elas tinham habilidades como ler pensamentos, adivinhar as respostas da prova oral, fazer o sinal da escola tocar mais cedo e transformar meninos em sapos.



Ao mesmo tempo em que trazia confusões – afinal, quem realmente quer lutar com monstros em vez de ficar em casa vendo Netflix? –, a bruxaria podia ser um atalho que tornava a vida mais conveniente, ou pelo menos, mais encantada.

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Quando falo de bruxaria, não me interessa discutir o aspecto religioso. Aliás, o que acho mais interessante em como a bruxaria se estabeleceu enquanto religião foi como ela nasceu a partir de um erro de uma pesquisadora.

No livro The Witch-Cult in Western Europe: A Study in Anthropology, lançado em 1921, a egiptóloga Margaret Alice Murray elaborou a teoria de que as mulheres executadas durante a caça às bruxas faziam parte de um culto religioso perseguido pela sociedade. Murray chamou esse culto de "A Velha Religião". 

O livro de Murray foi uma influência fundamental para que Gerald Gardner fundasse a Wicca nos anos 50, misturando a descrição dos rituais e das práticas dos participantes da “Velha Religião” com outros preceitos de ocultistas como Aleister Crowley e da maçonaria.

O problema é que, duas décadas depois disso, historiadores rejeitaram completamente as ideias de Murray.

O erro da egiptóloga foi ter interpretado ao pé da letra os depoimentos coletados. Murray acreditava que eles eram fiéis e não haviam sido obtidos sob tortura. Hoje, uma parcela de praticantes da Wicca prefere enxergar o livro escrito por ela como uma espécie de mito fundador da religião, e não um relato histórico.

Lançado em 2017 no Brasil, o livro Calibã e a bruxa, publicado originalmente em 1998 pela historiadora italiana Silvia Federici, encarou com mais ceticismo os depoimentos coletados durante os julgamentos das “bruxas”, que ocorreram na Europa de 1450 a 1750 e também nas Américas.

Por muito tempo, a explicação principal que a História (escrita por homens) ofereceu era de que a caça às bruxas foi uma histeria coletiva. As mulheres executadas eram loucas, depravadas ou narcisistas, e alguns chegavam a argumentar que o genocídio sofrido por elas foi necessário por uma questão de higienização social.

Mas Federici nos mostra que as bruxas europeias não eram “loucas”. Eram, em sua maioria, apenas mulheres brancas e pobres, que poderiam ser curandeiras, ter cometido pequenos furtos ou ser apontadas como bode expiatório pelo fracasso de seus vizinhos em um período de dificuldades econômicas.

As declarações absurdas sobre encontros com o diabo, festivais com nudez, orgias e banquetes, e crianças sendo assassinadas e devoradas dizia mais respeito aos interesses dos investigadores, que direcionavam as perguntas de acordo com as crenças da época sobre bruxaria e mulheres.

Num mundo em que a comida era pouca, o trabalho era muito, e a mão de obra era escassa graças à diminuição da população, a ideia de mulheres estivessem à solta comendo à vontade e assassinando crianças oferecia um espantalho para esconder o verdadeiro culpado das mazelas da sociedade (spoiler: o capitalismo).

Recorrer à magia implicava recorrer às mulheres em vez de autoridades como a igreja e a medicina. A teologia da época, portanto, pregava que era melhor deixar seus filhos morrerem do que levá-los para serem curados por uma bruxa.

Como aponta o livreto Witches, Midwives, and Nurses (1973), de Barbara Ehrenreich e Deirdre English, a caça às bruxas destruiu conhecimentos sobre saúde acumulados por mulheres durante séculos, obtidos por meio de observação empírica e passados de geração em geração. Além disso, coincidiu com a perda de poder das parteiras e com a ascensão da classe médica, que – surpresa! – era composta por homens brancos de elite.

A magia era inimiga da sociedade não só porque estava ligada a um mundo onde as mulheres tinham mais autonomia sobre os próprios corpos (e dos outros) e conhecimentos sobre saúde, mas também porque o “pensamento mágico” representava uma ameaça para o capitalismo que estava começando a se estabelecer, como argumenta Federici.

Afinal, a ideia de que você pode fazer uma simpatia para conseguir o que quer é completamente oposta ao conceito de meritocracia, do trabalho como mérito pessoal e do corpo como uma máquina. Dependente da produtividade e da previsibilidade, o capitalismo não poderia coexistir com um mundo encantado.

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Por que queremos acreditar na existência das bruxas? Enquanto evidência histórica de que elas existiram no passado seja passível de discussão, a possibilidade de que elas existam provoca medo em alguns, e fascínio em outras.

Como a caça às bruxas nos ensinou, acreditar que mulheres são criaturas imorais e excessivamente poderosas é uma das formas encontradas pelo patriarcado para exercer controle social. Até hoje persiste em meios misóginos a ideia de que são as mulheres que controlam e perseguem os homens.

Sacrificar mulheres para apaziguar tensões econômicas e políticas também não é uma prática exatamente nova: na Roma Antiga, problemas políticos eram atribuídos à violação da castidade de uma das sacerdotisas, que deveria ser assassinada para que a ordem social voltasse ao normal*.

Muitas de nós, porém, escolhemos amar as bruxas. Talvez porque encontramos nelas uma capacidade de expressar as próprias vontades, independentemente das regras sobre como deveria ser uma mulher.

Uma bruxa pode ser uma senhora idosa e solitária, uma rainha poderosa, invejosa e vingativa, uma criança atrapalhada e bondosa, uma femme fatale à procura de corações para partir ou uma adolescente tentando sobreviver à puberdade com um grupo de amigas.

Mas acima de tudo, uma bruxa é uma mulher que tem desejos e não tem medo de realizá-los.

Em Lolly Willowes (1926), da inglesa Sylvia Townsend Warner, Lolly escolhe romper com todas as convenções sociais da época, abandonar a vida de tia solteirona e ir morar numa cidade do interior, em 1957. O problema é que seu sobrinho, Titus, decide ir morar lá também.

Com medo de que o passado que ela se esforçou tanto para abandonar volte a assombrá-la, Lolly faz um pacto com o diabo e se torna uma bruxa, com o objetivo de expulsar Titus da cidade.

O diabo em Lolly Willowes não é uma figura sinistra, e sim um carinha amigável que gosta de pregar peças nos outros. Várias jarras de leite azedo e um ataque de marimbondos depois, Titus resolve ir embora e Lolly finalmente encontra a paz. Em um encontro com o diabo, ela explica porque decidiu se tornar uma bruxa:

 “Mulheres têm uma imaginação tão vívida, e vivem vidas tão entediantes. É por isso que nós viramos bruxas: para mostrar nosso escárnio de fingir que a vida é segura, para satisfazer nossa paixão por aventura.

Ninguém vira uma bruxa para sair por aí machucando os outros, nem para ajudar os outros, como uma assistente social montada numa vassoura. É para escapar de tudo isso – ter uma vida própria.”

Elaine em The Love Witch, filme de Anna Biller
Elaine, em The Love Witch

No filme The Love Witch (2016), de Anna Biller, a personagem Elaine (Samantha Robinson) se torna uma bruxa como último recurso para conquistar aquilo que deseja: a aprovação masculina. “As pessoas sempre me perguntam porque eu sou uma bruxa. Eu digo que é porque eu quero ter poderes mágicos. Mas não é como parece. É só usar a sua vontade para conseguir o que você quer”, explica Elaine.

Mas a artista Jenny Holzer não disse “Por favor, me proteja do que eu preciso” à toa. Nossa vontade nem sempre é o guia mais sábio de todos. Embora Elaine argumente que graças à bruxaria ela consegue o que quer dos homens, e não o contrário, seus feitiços do amor raramente trazem o resultado que ela espera. Assim que os homens se apaixonam, ela perde o interesse.

Embora sejam personagens com histórias diferentes, tanto Lolly Willowes quanto Elaine se agarram à bruxaria por acreditarem que essa é a ferramenta que as permitirá expressar a própria vontade no mundo. Com poucos recursos materiais para alterar a realidade, resta apelar à crença de uma força interior capaz de agir por elas.

Nós queremos acreditar tanto na ideia de um poder interior por que não encontramos poder no mundo exterior? Talvez na bruxa encontramos o mundo encantado que o tempo todo somos obrigadas a recusar. ✨

*Fonte: From Good Goddess to Vestal Virgins: Sex and Category in Roman Religion (1998), Ariadne Staples

Escute também a playlist bruxesca que fiz para acompanhar esse texto:



Mais bruxaria em The Love Witch: investigando a mulher louca por macho
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