Crescendo com Ghost World


Esses dias sonhei que estava no ensino médio de novo. Eu precisava participar de uma peça de teatro da escola, mas não conseguia fazer nada. Nem cantar, nem dançar, nem atuar (meu inconsciente ainda não realiza milagres).

Meu professor não sabia onde me alocar e eu comecei a me desesperar, porque precisava participar da peça para passar de ano. Aí me veio: ué, como vou conciliar a peça com o trabalho? Então entendi que eu não estava mais no ensino médio, que eu já era adulta. E acordei.

É difícil reconhecer que eu sou adulta, porque não correspondo à minha ideia do que um “adulto de verdade” seria. Na minha cabeça, adultos de verdade sabem o que estão fazendo o tempo todo. Adultos de verdade estão equipados com um instinto que os conduz em situações chatas como ir no cartório, resolver desastres domésticos e interagir com atendentes de telemarketing. Eles sempre sabem o que fazer.

A vida adulta seduz pela certeza que ela finge oferecer, mas a armadilha mais cruel é como ela limita a sua imaginação.

“Quando você cresce, o seu coração morre”, diz uma personagem do Clube dos Cinco, clássico adolescente do diretor John Hughes. Poxa, John Hughes, talvez seu coração continue intacto, mas você tenha dificuldade de conseguir ouví-lo com tantas coisas chatas pra resolver.

Quando você cresce, seu TEMPO morre. E conseguir ignorar as próprias emoções é uma habilidade essencial nesse processo de “crescimento”.

Enid na formatura do ensino médio

No filme Ghost World (2001), acompanhamos duas melhores amigas, Rebecca (Scarlett Johansson) e Enid (Thora Birch), saírem do ensino médio e terem que lidar com o agradável peso de serem as únicas pessoas responsáveis por decidir o que fazer com o resto das suas vidas.

Enid procrastina tomar uma decisão enquanto desenvolve uma obsessão por um cara de meia-idade, Seymour (Steve Buscemi), e frequenta as aulas de recuperação de artes. Rebecca decide encarar de frente a situação, arranja um emprego e começa a procurar um apartamento, mas em meio a esse processo ela perde o sentimento de não-pertencimento-a-este-mundo que a unia a Enid.

Em Ghost World, sobreviver na vida adulta se resume a criar suas próprias bolhas de conforto. Enquanto o consolo de Rebecca está em viver uma fantasia de independência, morando sozinha e pagando as próprias contas, a de Seymour é se cercar de objetos e de informações relacionadas à sua obsessão: música, ou, como ele prefere especificar, “jazz tradicional, blues e ragtime”.

Mas Enid tem dificuldade de se adaptar. Ainda que reclame das classes de recuperação, fica claro que ela prefere estar do lado de cá da adolescência. O vínculo que a prende ao ensino médio depois da formatura não é apenas acadêmico, é emocional.

Mas Ghost World não é apenas sobre dificuldade de se adaptar à vida adulta, ele também fala sobre o mal-estar no capitalismo.

As bolhas de conforto criadas pelos personagens são constantemente rompidas por fluxos de propagandas e produtos culturais absurdos, como a banda de blues formada por jovens brancos cantando sobre o sofrimento de apanhar algodão nos campos ou a estação de rádio que
perfura os ouvidos dos ouvintes com gritos agudos.

Nenhum dos personagens queria essas coisas, mas de alguma forma têm que lidar com o fato de que elas estão aqui, e com uma proximidade íntima demais.

O trabalho não é a utopia da realização pessoal, do “ame o que você faça”. Rebecca e Seymour não se identificam com o próprio trabalho. Seymour diz ter perdido todo o fascínio que ele tinha pela cadeia de fast food local ao começar a trabalhar lá. E qual é a grande satisfação pessoal que Rebecca pode encontrar ao servir café para pessoas que a tratam com desprezo?

Cena de Ghost World. Citação: "Everyone's too stupid"
"Todo mundo é idiota demais"

Enid não consegue dissociar a própria identidade do que faz e isso leva à demissão, logo ainda no primeiro dia do primeiro emprego. A esse ponto, como uma recém-adulta-de-coração-morto, a gente fica até com raiva dela. Afinal, o que a torna especial? Por que ela não consegue só fazer o que tem que fazer?

Embora a insatisfação de Enid com a vida adulta tenha os seus motivos políticos, ela também tem outros contornos. Uma garota branca e de classe média, Enid decide não ir à faculdade como uma forma de transgredir o que era esperado dela. Trabalhar é uma opção e não uma necessidade. A insubordinação de Enid às regras de um ambiente de trabalho tem o seu caráter subversivo, mas também deixa um ranço de privilégio branco: a ideia de estar "acima" de uma posição subalterna.

Como Enid é protegida pela própria situação racial e econômica, ela estranha a possibilidade de autonomia e de ter que construir algo por si mesma em vez de apenas rejeitar o que lhe é entregue.

É interessante que o filme termine com Seymour regredindo a uma espécie de  infância: desempregado e morando com a própria mãe, que o mima e cozinha para ele. Rebecca, aos poucos, vai saindo de cena. Em uma ruptura com uma narrativa que até então era realista, vemos Enid saltar sem explicação em um ônibus sem destino definido. Em vez da bolha de conforto da vida adulta, Enid escolhe a fantasia absoluta. Uma opção que talvez só exista no cinema. ✨

Ghost World é um filme de 2001 dirigido por Terry Zwigoff, com roteiro por Zwigoff e Daniel Clowes, autor da HQ original de mesmo nome (que é 🔝, leiam). 

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