Ocupadas pensando sobre blogs

Conversa com Vulva Revolução, Deixa de Banca e Clarissa Wolff

Desde que ganhei acesso à internet, o blog mudou e muito: deixou de ser diário para virar profissão. As coisas se transformaram tão rápido que Clarissa Wolff, do Doce (Catárticos), Maíra V., do Vulva Revolução, e esta que vos bloga, Amanda V., podemos nos considerar veteranas da blogagem.

É por isso que resolvemos inaugurar esse circuito de conversas falando sobre aquilo que nos une – escrever na internet. Essa entrevista faz parte de um novo projeto nosso: a cada mês, vamos discutir um tema diferente e o resultado será publicado em um dos nossos sites.

Nesta conversa, os assuntos foram desde os primórdios do Blogger até os nossos sentimentos conflitantes sobre ~bombar na web~, passando pelo receio de nos reconhecermos escritoras e como lidar com comentaristas misóginos.

Sem tempo? É só clicar para ir direto no assunto que te interessa mais:

Começar a blogar
Compartilhar a escrita
Ser lida
Exposição
Marketing
Processos criativos
Sucesso

Começar

Amanda V.: Como vocês começaram a publicar em blogs e por que se interessaram por isso?

Clarissa Wolff: Eu fiz meu primeiro blog porque li uma matéria na Atrevida ou na Capricho em 2004 e era tipo diário online MESMO. Depois tive alguns outros no mesmo esquema, e no ensino médio participei do projeto Tudo de Blog da Capricho. Foi quando comecei a comentar outros assuntos, coisas de cultura pop, enfim. A revista mandava temas também.

Tive um blog de moda em 2009 com uma amiga, a Marina Teixeira, que chegou a ter 100k visitas únicas em menos de um ano (isso numa época sem Facebook, Instagram etc), mas a gente nem manjava de Analytics e desanimou. Também escrevi num blog de música com um amigo, o Yuri Lopardo, num suplemento teen do sul, o Kzuka. E em 2012 fiz o Catárticos com meu namorado.

Amanda: Meu deus, quantos blogs!

Clarissa: Hahaha tive muitos siiiim!

Amanda: Eu lembro de fazer blogs desde pré-adolescente também e era exatamente nesse formato de diário. Não era algo que eu compartilhava com as pessoas, o objetivo era que fosse privado.

Maíra V.: Blog era muito diferente, né?  Mas, assim, meu primeiro computador em casa foi adquirido no final dos anos 90, e eu adorava, sei lá, entrar no chat do Cadê, ICQ e meios de trocar ideia de um modo geral.

Sei que fiz meu primeiro blog na adolescência, ainda na escola, em algum lugar do início dos anos 2000. E também tinha o intuito de ser mais privado, eu sequer lembro quem eram as pessoas que liam (ou se alguém lia). Ele era todo rosinha e tinha uma foto da Kathleen Hanna no fundo, nada muito diferente da minha identidade visual hoje, rs.

Eu adorava ler outros blogs, mas cara, esqueci total como chegava até eles! Percebo que hoje as coisas chegam tão fáceis na gente, você só entra numa rede social e recebe passivamente um monte de informação. Antes não era assim!

Clarissa: Eu pesquisava pelos afiliados. Todos os blogs na época tinham "blogs parceiros", uma lista giga de uns 50 blogs que aquele blog lia. E era um buraco negro, eu entrava num blog que gostava e ia abrindo os que esse blog lia e assim por diante.

Maíra: Tem um jornalista iraniano que curto muito, o Hossein Derakhshan, que ele fala sobre como a internet está se tornando "passiva, linear e programada" e sobre como redes como o Facebook mataram o hiperlink, a gente agora sai dele e volta, sai dele e volta. Antes tinha esse lance, de clicar e clicar e clicar até ir parar sabe se lá aonde.

Compartilhar

Clarissa: Quando que vocês quiseram começar a divulgar?

Amanda: Cara, um dia eu resolvi postar um texto no meu perfil pessoal do Facebook, mas não faço ideia de qual foi a motivação por trás. Isso foi em 2014. Só que algumas pessoas do meu Facebook curtiram e comentaram bastante, aí isso me deu vontade de transformar o blog em uma coisa que fosse pública, ainda que eu continuasse usando o formato diário. Mas naquela época ainda era mais um hobby do que um projeto de fato.

Eu só fui criar página pra divulgar ele no Facebook em 2015, pra vocês terem uma ideia! Eu era totalmente por fora desse circuito do blog como algo profissional. 

Maíra: Lá para 2012, 2013 fiz parte de dois blogs sobre cinema. Daí a Vulva nasceu em 2014!

Mas eu já queria ter um blog feminista há muito tempo, porque já lia, debatia e mergulhava no assunto há anos. Eu sempre ficava pensando em coisas tipo "ah, mas não tenho um layout bom", "ah, mas não sei como vou divulgar sem aparecer" (porque minha identidade foi totalmente secreta por quase um ano) etc.

Aí um dia decidi simplesmente criar um blog no Wordpress com um layout tosco mesmo e pronto! O que importava era escrever. Fui divulgando por um fake que se chamava "Vulva Revol" em grupos e foi dando certo... Aí com o tempo as questões estéticas foram se ajeitando, graças à ajuda de amigas e amigos!

Clarissa: Vocês tinham essa coisa de sentir que precisam/merecem ser lidas?

Amanda: No começo não, eu demorei muito pra levar minha escrita a sério e até hoje tenho um pouco de dificuldade com isso.

Clarissa: Eu pergunto porque pra mim isso foi muito forte. Não é tipo UAU COMO EU SOU INCRÍVEL TODOS DEVEM ME LER, mas eu sempre tive uma necessidade de escrever e de ser lida, queria ter feedback. Por isso escrevia fanfics, por isso me cadastrei no projeto da Capricho com, sei lá, uns 15 anos..

E parece que pra vocês, não tinha essa BUSCA ATIVA, sabe? 

Amanda: Sentir que preciso é algo mais espontâneo, mas reconhecer que mereço é mais complicado hahaha.

Clarissa: Com isso me identifico.

Maíra: Eu nunca busquei ativamente ser lida também, embora eu no fundo quisesse. É isso que a Amanda disse acho, de "sentir que mereço". E acho que é também medo de exposição, porque é muito íntimo escrever! As pessoas entram na nossa cabeça um pouco.

Fora o medo de não estar passando um retrato fiel de quem eu sou por meio da minha escrita, rs. Tipo "nossa, esse fragmento que apresentei representa a ideia que eu tenho de mim?" e altas lombras do tipo. Acho que o bom da Vulva é que ela é uma persona e daí tendo um recorte mais específico (feminismo! internet! mídia!), fica mais fácil talvez.

Ser lida

Clarissa: Eu nunca tive problema com exposição, eu acho que desde muito cedo entendi que o que me salva é escrever, é compartilhar, então isso é natural pra mim como sei lá, respirar. Eu mando meu texto pras pessoas, eu encho o saco do namorado e minhas melhores amigas pra lerem e comentarem.

E não é que acho que meu texto é bom sempre, mas eu vejo ele como um trabalho em construção, eu tô jogando uma ideia no ar pra ser construída através do feedback.

Maíra: Nossa, Clarissa, que engraçado! Caminhos bem diferentes mesmo. Eu, por exemplo, não gosto que leiam meu texto antes de estar pronto. E nem que opinem. Principalmente textos de blog. Textos jornalísticos (sou jornalista, pra quem não sabe) até vai, até porque nem sempre tenho escolha, rs.

Clarissa: Mas depois de publicado, você gosta que opinem? 

Maíra: [Quando o texto está em construção] atrapalha minha linha de raciocínio, mas daí depois, pode opinar a vontade, até porque, como você mesma disse, isso gera desdobramentos. 

Eu escrevi um texto sobre envelhecimento da mulher uma vez que, no fim, chamei a atenção para o fato de não ser só a mídia de modo mercadológico a explorar isso como algo negativo para movimentar inseguranças femininas e lucrar. Falei também de jornalistas, individualmente, como responsáveis por isso, por não se atualizarem sobre debates atuais.

Aí uma jornalista que acho muito massa fez uns comentários e isso acabou gerando outro texto a partir das reflexões dela. Esse meu texto [sobre o envelhecimento da mulher] foi o primeiro do blog a "furar a bolha", aliás.

Amanda: Também acho que me faltaram referências de pessoas que faziam algo parecido com o que eu queria fazer.

Esse impulso de divulgar começou a crescer quando eu descobri a Tea Hacic, os blogs dela (T-crumpets e Sugar tits) e vi que ela tinha conseguido uma coluna na Vice Itália e escrevia em outros lugares também. Aí me bateu um estalo de que eu poderia escrever do meu jeito e mesmo assim ter audiência, que eu não precisava me encaixar num modelo de blog mais comercial.

Clarissa: Comercial no sentido de negócio, de ganhar $, ou comercial no sentido de facilmente consumido?

Amanda: Acho que ambos, porque são coisas que se relacionam! Não que meu blog seja super complexo de ler, porque eu prezo por uma escrita que seja fácil de entender.

Maíra: Eu também! O Vulva nasceu pra falar de coisas gerais por um viés feminista e de modo descomplicado, sem excesso de termos acadêmicos ou jargões e outras coisas que às vezes leio em textos feministas no geral e vejo que afasta quem já não está inserida ou inserido no assunto.

Clarissa: Isso é muito importante pra mim. Tento também não usar mais termos em inglês, que usava muito.

Exposição

Amanda: Eu me expunha muito no começo, postava fotos minhas, falava de detalhes da minha vida pessoal. Isso mudou quando publiquei um texto na Vulva (Dez coisas que homens fazem errado durante o sexo) e vi os comentários lá. Tinha muita coisa horrível, xingamentos, um cara falando que eu devia ser apedrejada. Aí eu resolvi tirar tudo que desse pra me identificar no meu blog, principalmente fotos minhas. 

Maíra: Nossa, esse texto bombou demais, o blog alcançava picos de tipo 250 mil visitantes em um dia na época que foi postado... Listas + sexo = uma bomba no marketing de conteúdo, hein? rs.

Amanda: Foi a primeira vez que eu escrevi algo que saiu da "bolha" e foi um choque muito grande que me fez repensar como me colocar enquanto autora na web, como me proteger de assédio e ao mesmo tempo ter visibilidade.

Clarissa: Seguinte, Amanda, eu não sabia seu nome, eu te chamava de "a Deixa de Banca" quando falava de ti pro meu namorado, e você contou agora essa história de expor menos. Como funciona o seu ego nessa hora quando o seu NOME não tá envolvido?

Também quero ouvir da Maíra sobre o processo da anonimidade e posterior revelação.

Amanda: Cara, acho que pra mim o que acabou acontecendo foi de ter duas identidades separadas, a ~Deixa de Banca~ e eu, a Amanda. Então quando o Deixa de Banca aparece eu não me incomodo de a Amanda não estar aparecendo junto porque pra mim são coisas diferentes, sabe?

Até interagir pessoalmente com leitores acaba sendo meio estranho porque eu sei que criam uma expectativa sobre quem eu devo ser e que não vou corresponder a ela.

Maíra: No meu caso, eu tinha medo não só de exposição, mas do que minha família ia pensar e, sei lá... tinha e ainda tenho talvez uma espécie de modéstia extrema que somos socializadas a ter, tipo "oh, não estou fazendo nada demais, é só um blog", enquanto tem mil caras por aí que nunca escreveram uma linha direito e se auto-intitulam escritores! Novelistas! Juro que já vi mais de um!

Mas daí quando fiz um ano de blog e quis comemorar e fazer um evento, eu precisava usar minha própria rede para divulgar. Não tinha mais como ficar escondendo, e nem porquê também, acho.

Mas também não me mostro muito. Quero que as pessoas se interessem pelos meus textos e ideias, fico pensando sobre cultura de celebridade readaptada para pequenos nichos e meios independentes.... e acho que a gente deveria abolir esse esquema de celebrizar e idolatrar indivíduos e entender que somos todos um monte de gente construindo coisas juntas e juntos.

Amanda: Acredito que isso esbarra também numa questão de objetificação quando a gente é mulher. 

Lembro que na época que eu usava fotos tinha um cara que lia meus textos, vinha comentar eles no meu inbox, deixava comentário... depois que ele começou a namorar, sumiu. Então também me incomoda a ideia de estar sendo lida porque me acham gatinha ou querem me pegar, desvincular minha aparência física do que eu escrevo é uma forma de tentar evitar isso também.

Clarissa: Amanda, por que você acha que não vai corresponder à expectativa da sua persona autora esperada? 

Amanda: Então, é porque no meu blog eu acabo fazendo uma curadoria de mim mesma, selecionando as partes que eu quero que apareçam e omitindo/descartando as que eu não quero. E às vezes quem lê pode achar que aquilo é o todo, né?

Clarissa: Entendi. Faz sentido. Eu acho que sou mais incisiva e brava nos textos.

Maíra: Eu sou mais incisiva nos textos também, acho! E morro de inveja da Amanda, que é muito engraçada escrevendo. Eu sou muito engraçada na vida real, mas nos textos não consigo ser.

Clarissa: Maíra, hoje você se considera escritora?

Maíra: Ainda tenho dificuldade em falar S-O-U- E-S-C-R-I-T-O-R-A mas no meu íntimo já me considero!

Me autopubliquei no papel, colaborei para projetos legais e para veículos relevantes e milhões de pessoas entraram no meu blog, que não apenas foi bem acessado, mas gera engajamento, discussões....

Tipo, dia desses eu vi um evento de arte em Portugal usando texto meu como base pruma discussão, atravessei fronteiras que eu realmente não imaginava.

Clarissa: Sou igual você, Maíra. No íntimo me considero, mas eu me sinto estranha em falar que sou escritora. Preciso falar "sou uma pessoa que escreve". E caramba, parabéns!!!!

Isso que tu falou da aparência, Amanda, muito louco que eu penso que, tipo, o fato de eu ser bonita me "blinda" de muita ofensa. Porque a primeira coisa que falam mal de feministas é ser feia, mal comida, e eu sou bonita, eles vão falar o quê? 

Então pra falar de feminismo, o privilégio de ser bonita me ajuda a publicar – talvez sem isso eu não teria coragem, ia ficar com raiva se me chamassem de feia e mal comida. Inclusive já respondi um cara falando que sou linda e transo quando quero com meu marido, porque isso NÃO TEM QUE TER A VER COM MEUS TEXTOS. Mas é muito errado ao mesmo tempo porque continua na obrigação de mulher ser bonita (Qui auto estima da porra eu).

Maíra: Hahahahah, mas vocês são maravilhosas, mesmo!

Acho que o fato de eu não aparecer tanto, antes pelo menos, ajudava nisso, os caras não tinham como me xingar com precisão, porque não sabiam muito sobre mim, pessoalmente. Então sempre rola uns vadia-mal-comida-louca genérico mesmo.

Clarissa: Acho mara que é sempre: vadia e mal comida as ofensas. Os caras não são coerentes nem pra xingar.

Maíra: Nossa, exatamente???? Essa necessidade de xingar uma mulher quando não concorda com ela é muito doentia. É uma doença social, claro, que prevê a manutenção do status quo e quer manter a gente calada, com medo.

Fico pensando em uma mina gorda que escreve, por exemplo, e mostra lados maravilhosos de si, ideias novas, e provavelmente precisa ler o dia inteiro que é gorda-gorda-gorda-gorda como se isso fosse algo ruim – e como se ela fosse só isso. Dá muita raiva.

Marketing

Maíra: Mas voltando pra blogs. Como vocês pensam a questão de marketing e monetização? Somos de um tempo de blog enquanto diário, como forma de expressão individual que não precisava necessariamente ser amplificada, uma época de conteúdo autoral e pessoal. Agora tem muita gente que se diz "blogueira" ou "blogueiro" e estuda como "fazer conteúdo".

Amanda: No começo eu morria de preguiça e tinha preconceito. Mas depois percebi que eu tava me sabotando com isso e comecei a pesquisar muito sobre o assunto.

Por outro lado acho bem frustrante ter que competir com empresas que estão penetrando nas redes sociais e nos blogs com marketing de conteúdo. A gente que é menor e não tem a mesma grana acaba saindo em desvantagem.

Clarissa: Eu sou meio escrota com isso porque às vezes acho que minha atitude desvaloriza a escrita como trabalho. Mas assim, de um ponto de vista de marketing, o meu objetivo é fazer meu nome. Eu ainda sou MUITO pequena, contribui pra lugares legais mas poucos (só tenho texto no Uol, Vice gringa e Rolling Stone), mas eu quero escrever. Quero publicar livros, quero que as pessoas pensem em mim e a primeira coisa que relacionem seja a escrita. 

Então agora o que eu quero é botar textos na rua — não teria problema de dar texto de graça se fosse bom pro meu currículo, para ser mais reconhecida. Eu não penso ainda como meu conteúdo sendo vendável por si, eu penso no meu conteúdo como uma forma de ME VENDER como profissional em construção.

Maíra: Pro blog eu não faço nada demais, apenas criei uma atmosfera própria (meu branding, se pá, rs) que se relaciona com coisas que gosto, tipo essa vibe meio rosa, riot grrrl, feminista.

Clarissa: Eu acho que ter esse branding, esse nicho, ajuda muito a se vender. O meu blog é zero nichado, e daí também teria essa dificuldade.

Amanda:
Cara, o pior é que é muito trampo, acho que muita gente não tem noção do esforço que rola. Eu mesma no começo achava que era só postar o texto e pronto, mas hoje vejo que tem que manjar de SEO, HTML e CSS, edição de imagem, gerenciamento de redes sociais, branding. 

Maíra: Siim!!!!!!!! Mas é bom que com nossos próprios projetos, que a gente toca como quiser e pode experimentar, a gente aprende muito, né? Alô, empregadores, mandem jobs!

Então, também quero, assim como a Clarissa e creio que a Amanda também, fazer meu nome por meio dos textos e escrever em vários lugares e me consolidar enquanto escritora, jornalista ou o que seja mais do que como "blogueira".

Clarissa: Eu também! Não penso em ser blogueira, quero ser escritora.

Maíra: Mas uma coisa que percebo, e posso estar errada, é que pra você conseguir viver-de-blog você tem que usar sua imagem, porque as marcas ou instituições que vão te contratar para parcerias, divulgações e afins, precisam dessa pessoa iconizada e tal. Eles querem mais o público-alvo do que se importam com o conteúdo em si.

Clarissa: Sim, com certeza. A Camila [Coutinho] do Garotas Estúpidas pra mim é uma das melhores pessoas em pensar o negócio da produção de conteúdo no Brasil e ela fala sobre esse shift de direcionamento que houve nos últimos anos.

Amanda: Também tenho essa percepção! Mas acho que isso tem a ver com o contexto brasileiro também. Na gringa vejo muita gente que faz nome como autor na internet por causa da escrita (Karley Sciortino, Emily Gould, Emily McCombs, Mandy Stadtmiller).

Maíra: Tipo, eu comecei a colaborar para o Delirium Nerd, e não rola grana, mas é um blog fantástico, pude escrever sobre séries, filmes, ir ao Campus Party, mostrar meus outros lados.

Amanda: Lá fora tem mais sites que te pagam pra escrever. Aqui boa parte dos sites é colaborativo, igual ao Delirium Nerd.

Maíra: Sim! E até por meio da escrita no Twitter, né, como a mina do So sad today que esqueci o nome agora [Melissa Broder].

O que falta para a gente conseguir se autogerir? Vejo que lá fora existem muito mais sites menores que possuem algum tipo de sustentabilidade financeira e liberdade criativa do que aqui. 

Clarissa: Mas a gente tem que pensar que isso é um problema maior do Brasil em geral. O consumo de material escrito no Brasil é uma crise há ANOS. O livro físico tem o preço quase estático e sem inflação há anos e mesmo assim o mercado tá em crise. A gente não é acostumado a consumir conteúdo escrito como em outros países.

Maíra: É, quando a gente lembra que livros de colorir que salvaram o mercado editorial aqui em 2015… é uma questão de educar para a leitura mesmo, de modo geral, e de atrair leitores. Acho que essa parte a gente tá fazendo bem no sentido de desmistificar assuntos que parecem complicados e mostrar que todo mundo pode ler, entender e dar o seu pitaco.

Mas talvez a gente (por "a gente", quero dizer mulheres que escrevem de um modo geral – e outras minorias) precise começar a entender mais de coisas burocráticas, como editais, elaboração de projetos. A gente precisa ter menos medo de falar em dinheiro, de vender nossa força de trabalho, de competir por fatias de recursos existentes.

Não acho que isso vá mudar radicalmente o cenário, mas já é uma ajuda. Até mesmo projetos independentes em destaque são muito encabeçados por... homens brancos.

Clarissa: Vocês já se inscreveram em algum edital ou participaram de algum concurso com texto? Pode até ser acadêmico, mas que valha prêmio em $$.

Amanda: Ainda não!

Clarissa: Eu me inscrevi em um só esse ano (Prêmio Sesc, fui finalista, mas não ganhei). Mas todas as mulheres que eu conheço que escrevem, NENHUMA NUNCA SE INSCREVEU EM NADA. Eu acho que a gente tá sempre "esperando ficar pronta" pra se inscrever querendo dar o nosso MELHOR de tudo e nunca é agora, a gente sempre acha que tem que melhorar.

Maíra: Nossa, total! Sobre editais de projetos culturais e afins, já participei em coisas dos outros, mas ainda não inscrevi algo meu. 

Aliás, a gente se cobra demais mas porque o mundo cobra, né. Uma mulher tem que ser boa duas vezes mais... quando é uma mulher negra, então? Mil vezes mais, e aí a gente fica insegura porque nossas falhas não vão ser avaliadas com carinho. Na nossa cabeça, elas vão ser a confirmação do fiasco que somos.

Só que todo mundo erra!!!!! Ou todo mundo faz coisas não tão interessantes até chegar ao ponto de fazer algo interessante. Nenhum projeto surge do além.

Processos criativos

Amanda: Uma coisa que achei legal do começo da nossa conversa foi ver o quanto de coisa vocês já tinham feito antes dos blogs atuais.

Às vezes ficamos com a impressão de que fracassamos porque a primeira coisa que fizemos não foi um grande sucesso, sendo que geralmente precisamos tocar vários projetos antes de chegar naquilo que vai nos fazer ~estourar~ ou chegar aonde sonhamos. 

Maíra: Ou às vezes é a junção de tudo que a gente fez. Não existe "A" grande coisa, talvez, mas uma trajetória.

Clarissa: E tem uma coisa que acho que é básica mas que a gente deve repetir que é COMEÇAR. Vai lá, faz, depois faz outro, e outro, e começa quando tiver vontade, sem pensar DEMAIS.

Maíra: É uma conjunção de fatores, acho, que faz a gente ser o que é, mas vivemos em uma era muito ansiosa e todo mundo quer sempre a-grande-ideia ou o-grande-projeto que valide logo a nossa existência! rs.

Clarissa: Ah, e o que é ser bom, pra vocês? Tipo, o que gera orgulho pra vocês? 

Amanda: Minha reação imediata foi pensar ser publicada em livro ou ganhar dinheiro para escrever conteúdo, mas aí percebi que são validações externas que não necessariamente têm relação com qualidade em si e que estão em um futuro hipotético (olha a ansiedade falando aí). 

Clarissa: Algumas coisas pra mim: quando tem bastante feedback/alcance positivo (e alguns negativos porque sei que incomodei hahaha). Quando o texto atinge bastante gente. Quando tem elogios de pessoas que admiro. Quando eu me sinto contente com o resultado do texto em si, de reler e pensar "opa isso aqui tá bom".

Mas principalmente é quando vem alguma mulher me agradecer e dizer que o texto ajudou de alguma forma. 

Maíra: Lembro que a primeira vez que eu soube de uma atriz famosa compartilhando um texto meu (aquele do envelhecimento) eu fiquei tipo "UAU".... e isso é legal, até pela questão da visibilidade.

Mas aí depois vi que na verdade o que me deixava realmente satisfeita de um modo mais profundo era possuir uma rede de mulheres diversas que acompanham o blog pelo Twitter e pelo Facebook, vejo que existem lésbicas, héteros, bissexuais, negras, brancas, gordas, magras. Isso me fez sentir que eu estava de fato me comunicando com mulheres de diferentes realidades e não apenas com um nicho.

Também gosto de reler algo que fiz e dizer "uau, isso ficou bom" mas, geralmente, demora uns meses pra isso acontecer. Meu contato inicial com meus textos costumam ser meio "mmm legal mas nossa meio estranho né". Daí quando releio às vezes penso "nossa, conectei as ideias direitinho, como eu consegui?". 

Então, tipo, é como se eu estivesse sempre num ciclo de duvidar de mim mesma e me provar que estou errada e que posso ser boa. Aí quando as coisas boas acontecem, quando sou chamada pra participar ou escrever em algo, ou quando o blog "bomba" mais, penso sempre que é "sorte" e não a consequência do meu trabalho — árduo!, diga-se de passagem.

Sucesso

Amanda: Eu tenho muito interesse também em entender o que diferencia quem consegue fazer sucesso e quem acaba não tendo uma visibilidade tão grande, principalmente quando se trata de blog. O que vocês acham que, nos moldes atuais, pode ajudar alguém a fazer sucesso? Quais são as coisas que vocês já fizeram com o blog que contribuíram pra vocês se destacarem?

Clarissa: Eu acho que fazer sucesso tem a ver com alguns fatores: 1) timing (tipo, hoje blog tá em decaída, o que tá em alta é Youtube. Também tem timing do tema, de ser novo, etc), 2) sorte, 3) contatos, 4) estratégia, 5) qualidade dos textos. Não nessa ordem.

Maíra: É, eu colocaria qualidade dos textos em primeiro! rs

Clarissa: Eu acho que qualidade dos textos influencia muito pouco no sucesso. Eu vi esse vídeo ontem, acho que tem a ver.

Maíra: Acho que tem que construir uma rede e fazer parte dela de verdade. Acho muito estranho pessoas que surgem das catacumbas do além para mandar um inbox divulgando um projeto, por exemplo.

Eu acho que se comunicar com quem se interessa por coisas que você também se interessa, ou que pode vir a se interessar, em forma de diálogo mesmo, se importando com o que a pessoa tem a dizer, é o melhor. E não só tratar as pessoas ao redor como possível público, de modo unilateral. Porque aí entra no lance da cultura de celebridade que falamos antes.

Clarissa: Eu acho que isso é importante pra nós mas é pouco relevante em fazer sucesso. Acho que tem muita sorte no meio e que a gente vive num momento de imagem. A forma mais fácil de fazer sucesso é virar modelo de Instagram, saca?

Maíra: Pois é. Acho que a gente precisa talvez trabalhar com uma noção de sucesso menos ambiciosa no quesito amplitude, porque essa ressonância gigante exige uma certa quebra na sua credibilidade, acho. Eu prefiro ter sucesso escrevendo do que ser "famosa". Eu acho que pra bombar demais você tem que começar a fazer publicidade demais, desgastar demais a própria imagem.

Clarissa: Eu acho que depende do público, porque tem um público que ama consumir imagem.

Maíra: Sim, isso é verdade, isso é uma realidade do nosso tempo que não dá pra negar. Mas sou romântica!!!! kkkkk.

Amanda: Esses dias mostrei pra Maíra uma matéria sobre microinfluenciadores, pessoas que não têm 22 milhões de seguidores mas que têm mais credibilidade e conhecimento na própria área, um público mais segmentado e acabam gerando mais engajamento. Acho que pode ser um caminho pra gente (embora o texto citasse a Maíra Medeiros e a Mandy Candy como exemplos de "microinfluenciadoras", o que me deixou chocada).

Clarissa: É uma das tendências de comunicação. Eu vendi quase 20 "As garotas" depois do meu vídeo, e eu tenho 2.5k [seguidores] no Youtube... não é sempre, mas é uma puta conversão, sabe?

Maíra: Pois é, acho que "microinfluenciadores" engajam mais e possuem mais credibilidade, se estivermos falando de pessoas que realmente pesquisam os temas que discutem e tal. Mas a matéria que a Amanda mostrou mostrava gente que pra mim é enorme como micro! Socorro!

Clarissa: Siiiim, micro é menos de 100k, tipo 20, 10k… Maíra Medeiros não é micro nem pensar. Também tem que ver o nicho, a maior youtuber de livros do mundo tem 400k, no Brasil 200k. 100k aqui no Booktube já é gigante. COMEÇOU GAME OF THRONES, FUI! EH SAGRADO.

Maíra: Hahaha BEIJOS

Amanda: Hahaha beijos. Boa série! ✨

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Mais money, power & glory em Amanda posta foto de biquíni e filosofa na web e Molejo e a mais valia.

Imagens emprestadas da revista Računari, ativa entre os anos 80 e 90 na Ioguslávia. 

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