Como me tornei careta

Treta e desejo

Quando eu tinha 15 anos, li A virgem e o cigano, uma novela do D.H. Lawrence. As lições que tirei do livro naquela época foram: a) O tesão é uma força universal que supera as barreiras de classe; b) Homens conseguem perceber se você é virgem só de olhar para você. Bom, como eu disse, eu tinha 15 anos.

Um dos meus maiores arrependimentos da adolescência foi deixar Lawrence ser responsável pela minha educação sexual. O cara acreditava que as mulheres eram inundadas pelo oceano ao gozar e que aquelas que não conseguiam ter um orgasmo com penetração eram “lésbicas”, ou seja, “pessoas horríveis”. Mas, misoginia à parte, Lawrence sempre foi bom em retratar tensões de classe, e esse foi o ponto que me chamou atenção ao reler A virgem e o cigano, anos depois. 

Muito da obra de Lawrence se relaciona com as tensões que ele viveu ao crescer com o pai, um operário alcoólatra e agressivo, e mãe, que era culta e cultivava aspirações elitistas. Lawrence cresceu se identificando com a mãe e buscando ascendência social por meio dos estudos.

Mas ao se tornar adulto e perceber que ser culto não lhe dava um passaporte para a alta sociedade, Lawrence começou a se identificar mais com o seu pai e a admirar a masculinidade de homens da classe trabalhadora. O escritor passou o resto da vida como um outsider, sem se identificar com os valores e os interesses daqueles da classe de onde vinha e sem conseguir se integrar à classe cujos interesses eram semelhantes aos seus: a nobreza.

Então faz sentido que boa parte do livro A virgem e o cigano exalte o personagem do cigano, um homem viril que não obedece às convenções sociais e se coloca (ou é colocado?) à margem da sociedade. Em um processo de devorar o outro (olá, bell hooks!), Lawrence coloca o povo cigano como mais sexualmente vivaz e mais em contato com a visceralidade humana do que a classe média branca a quem a personagem principal Yvette pertence. 

Yvette cresce em uma família formada pelo pai, um vigário, a avó controladora e a irmã Lucille. A casa é assombrada pela ausência da mãe de Yvette, que traiu o vigário e fugiu com o amante. Yvette e Lucille têm que lidar com o medo de se tornarem “iguais à mãe”, sentimento instilado nelas pelo pai e pela avó. 

Com tantas restrições, ao encontrar o cigano, Yvette começa a sonhar com a possibilidade de uma vida diferente, na qual ela seria livre e não tivesse que obedecer aos costumes hipócritas da família. Os dois chegam a interagir poucas vezes, mas superficialmente, até que graças a um acidente acabam se encontrando e aí SPOILER (mas pelo título do livro você já deveria ter adivinhado). Depois, Yvette recebe uma carta assinada pelo cigano, e aí que ela “percebe que ele tinha um nome” (John). 

Enquanto somos levados ao longo do livro a acreditar que John é quem tem o poder durante a interação com Yvette, ao final levamos o choque de perceber que até então o que conhecemos dele é uma fantasia criada por Yvette, que não o havia enxergado como uma pessoa concreta e sim como símbolo daquilo que ela desejava para si mesma.
A tensão de classe se revela: é ela que, na posição de mulher branca e de classe média, o objetificava (Common people, do Pulp, ainda não havia sido lançada em 1930. Você nunca vai ser common people, Yvette!). Mas essa objetificação nasce de um lugar complexo. Por não ter formas de expressar as próprias aspirações, Yvette projeta elas em um homem.

Citação de Simple Men, filme de Hal Hartley

O que nos leva à questão: é possível fantasiar com algo que não nos leve a um lugar escroto? É possível romantizar a própria vida sem ir rumo à autodestruição, ou a destruição do outro, seja material ou simbólica? E é possível fazer isso sem evitar a celebração de lugares comuns e a positividade artificial? “Horror, afinal, é o ingrediente básico de cada mordida de manteiga, açúcar, cada camada de bolo”, diz Richard Hell, meu guru do pessimismo.

Eu escrevia mais quando eu tinha ilusões. Eu escrevia mais quando eu conseguia enxergar minhas experiências autodestrutivas por uma lente que as tornava bonitas e interessantes, e não simplesmente uma merda. Eu era mais capaz de me encantar com a minha própria vida justamente quando ela estava caindo aos pedaços.

Reconheci que sou viciada nas minhas próprias emoções, e preciso lutar contra elas para evitar me levar a situações que vão me prejudicar só para ter um pico (e uma queda) de sentimentos loucos. Mas quais narrativas posso construir então? Tanta literatura que consumo é produzida justamente a partir dos desastres e dos erros, das falhas de caráter e dos deslizes morais.

Pela primeira vez na vida eu tenho um relacionamento estável com uma pessoa que me ama e me respeita, um emprego, uma rotina, uma relação sincera com meus pais, mas não consigo simplesmente relaxar e apreciar essas coisas como algo positivo. Sinto como se estivesse estagnada e minha vida fossem sem graça. Por que eu não consigo encontrar encanto naquilo que me faz bem? E por que a sensação de estagnação é acompanhada por um medo de algo horrível e sem forma se espreitando, como se agora eu tivesse chegado ao topo e a única opção fosse despencar do precipício?

Que voz é essa dentro de mim que me acha chata por não querer me destruir?

Em Não sou uma dessas, Lena Dunham relata como um combo de baixa auto-estima e referências culturais de relacionamentos destrutivos a levou a investir emocionalmente em caras que a tratavam feito lixo. "Elas [as outras garotas] poderiam ter seus relacionamentos saudáveis e historinhas de amor tradicionais. Eu seria tipo Sid and Nancy, me recusando a me conformar com o status-quo. Eu seria cool.” No final, porém, Dunham percebe que ela não ia alcançar a iluminação sendo maltratada por homens: ela só ia se sentir pior em relação a si mesma.

Lena Dunham diz não ter aprendido nada com as relações destrutivas em que entrou, mas ela conseguiu a história dela, diz a escritora insensível dentro de mim.

Este é um sintoma particular, mas que tem os seus contornos culturais. Na lombada de Não sou uma dessas, lá está a descrição do jornal Independent: “É como Judy Blume mas com sexo selvagem e drogas de prescrição”.

Embora o livro faça de fato menções a algo que possa ser interpretado como “sexo selvagem” nessa sociedade patriarcal completamente sem noção (um estupro!), e drogas façam aparições ocasionais, os coadjuvantes que *eu* destacaria são os transtornos de ansiedade e obsessivo compulsivo de Dunham, que aparecem com maior frequência e dão mais corpo às histórias. Mas esses não são temas tão vendáveis quanto a ideia de que Não sou uma dessas se trata de uma versão mais esquisita e charmosa de Skins.

É nesse momento em que percebo que sou filha do meu tempo: o quanto minha pessoa “ideal”, que seria divertida, abertamente sexual e com um interesse em explorar tudo o que é proibido e uma rejeição do que é “careta” é moldada por uma cultura focada em prazer e perigo, que parecem ter virados sinônimos. Um mundo em que eu abro uma revista de teoria feminista e dou de cara com um artigo defendendo que barebacking (sexo anal sem camisinha) é uma prática transgressora por ressignificar o sêmen de uma forma positiva e desafiar o discurso racionalista da área de saúde, promovendo uma aproximação entre prazer e morte que tem sido reprimida na sociedade atual (sim, não estou inventando isso). Em que “morro mas não paro de beber” é uma canção engraçadinha com 27 milhões de visualizações no Youtube.

Sinto que envelheci dez anos só de escrever esse parágrafo aí em cima, e estou com vergonha de mim mesma por parecer mais uma tia conservadora do que a persona blogueira jovem e moderna que eu internalizo e imagino que meu “público” (se podemos chamar assim o meu gato de estimação) projete em mim. Contra o conservadorismo da geração anterior, a nossa encontrou refúgio na celebração do prazer, do proibido e da negligência aos riscos, mas a que custo e com quais resultados?

Hoje, minha fantasia é uma forma de subversão que não envolva suicídio, rápido ou lento, e que consequentemente não acabe por sabotar a si mesma. Eu quero ser careta. ✨

I wanna be uncool.



Mais caretice em Socorro! Tenho 22 anos e não sei me divertir e Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro.

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