Lust for life tem o que é preciso para recuperar nossa vontade de viver?

Resenha do quarto disco de Lana Del Rey, Lust for life

O quarto álbum de Lana Del Rey, Lust for life, não poderia ter marcado uma transição mais drástica do que essa: de costume tão depressiva quanto o usuário médio do Twitter, Del Rey aparece sorrindo na capa. Mas ao contrário do anunciado, o disco não marca uma transformação definitiva para um estado otimista. É um álbum ambivalente, dividido entre nostalgia por um passado tóxico e o desejo de superar padrões autossabotadores e ir além da ilusão – ou, pelo menos, criar um novo modelo de fantasia.

De todos os discos lançados por Lana Del Rey até agora, Lust for life é o menos homogêneo em termos de atmosfera. As tradicionais canções melancólicas e sombrias sobre relacionamentos disfuncionais ainda estão presentes, mas são intercaladas com músicas mais positivas (mas sempre lânguidas) sobre um futuro melhor.

Em vez de apenas celebrar uniões entre casais, Lana está começando a demonstrar um interesse mais intenso por glamourizar comunidades, um anseio ao qual ela já havia mencionado em entrevistas anteriores e que havíamos encontrado brevemente em This is what makes us girls.

Quanto ao som, algumas mudanças foram feitas, mas é evidente aquela marca que Lana consegue colocar sobre todas as músicas que produz. Fica a percussão de trap, tão presente em Honeymoon. Sai o jazz, entra de novo o hip hop. Os samples de “hey” e de sinos, característicos de Born to die, fazem um retorno. A influência de girls groups dos anos 60 é perceptível, tanto nas letras (“meu namorado está de volta”) quanto no som, mais cheio e com mais camadas do que o de Honeymoon. E os arranjos de cordas, presentes em todos os discos, também não abandonaram Lust for life, garantindo a atmosfera cinemática característica de Del Rey.

Além de ter conquistado seu lugar no cânone pop pela originalidade na produção de suas músicas, Del Rey também merece destaque pelas histórias que conta. Investigar as letras das canções pode ser um exercício tão interessante quanto se entregar à cadência lânguida das melodias. Aí vai uma análise, canção por canção, porque pensar demais sobre música pop é a minha forma favorita de procrastinação:

Love
A coisa mais interessante em Love são os contrastes entre sonho e realidade. Jovens ouvindo música antiga, mas por meio da internet, se arrumando, mas sem ter nenhum lugar para ir. No fim das contas, está tudo bem, porque tudo isso faz parte de ser jovem, e não é legal ser jovem?

Faz sentido que o nome da música seja simplesmente "amor", uma pista do que esse sentimento nos oferece: a possibilidade de escapar das trivialidades chatas do cotidiano e nos tornar maiores do que nós mesmos. Lana Del Rey é excelente em criar atmosferas que te permitem acessar um sentimento amplificado, e Love faz isso muito bem.

Lust for life
É claro que uma canção de Lana Del Rey sobre "desejo de viver" começaria com uma referência a suicídio. Em 1932, uma atriz chama Peg Entwistle se suicidou se jogando do "H" do letreiro de Hollywood. Mas em Lust for life, "subir até o H do letreiro de Hollywood" é uma atitude ressignificada para representar euforia e onipotência, sentimento que se perpetua por toda a música, como na citação ao poeta William Ernest Henley: "Somos mestres do nosso próprio destino, capitães das nossas almas".

Mais interessante ainda é perceber como Lana Del Rey liga o desejo pela vida com o desejo sexual ("tire todas as suas roupas"), algo que a entrega como uma artista pop da atualidade. Afinal, vivemos em um período em que sexo se tornou um elemento fundamental das nossas identidades. Contribuindo mais uma vez para o mene "todo dia uma citação diferente de Eva Illouz no Deixa de Banca", aí vai:
"Sexualidade passou a se tornar o centro do projeto de ter uma vida boa e uma identidade saudável. (...) O indivíduo não só conta para si mesmo a sua história como uma história sexual, mas ele transforma a sexualidade em si mesma, como uma prática e um ideal, no propósito dessa narrativa."
Também estou apaixonada pela capa desse single: Del Rey encolhida aos pés de The Weeknd em um campo florido, enquanto nós somos quase cegados pela luz dos refletores ao fundo, até tomarmos conta de que estamos em um set de cinema. É a fantasia do amor como fusão entre masculinidade e feminilidade exposta como artifício? Ou isto sou eu pirando demais? Provavelmente a última opção, mas essa é minha versão de estar me divertindo demais para parar!

Capa do single Lust for life, colaboração de Lana Del Rey com The Weeknd


13 beaches
13 beaches é uma espécie de anti-Radio. Em vez de cantar os louros de ser uma celebridade, Del Rey mostra como superar um coração partido sob as luzes dos refletores pode ser excruciante. A fama é retratada como uma situação de isolamento. Dos outros ("Algo me separa das outras pessoas") e dos próprios sentimentos ("Estou pronta para a câmera quase todo o tempo").

Del Rey só pode ser ela mesma quando está longe das outras pessoas, sem ter que performar, mas chegar nesse lugar é difícil ("Foram preciso 13 praias para encontrar uma vazia").

Cherry, White mustang, Summer bummer (feat. A$AP Rocky e Playboi Carti), Heroin
"Amor é como sentir nenhum medo quando você está encarando o perigo, porque você quer aquilo tanto". Uma concepção autodestrutiva de amor naturalmente leva a relacionamentos problemáticos. O resultado: "Minhas cerejas e meu vinho, alecrim e tomilho, e todos meus pêssegos estão arruinados". Lana clássica.

A temática se repete em White mustang, Summer bummer e Heroin. A primeira é nostálgica, do ponto de vista de uma mulher que já foi abandonada, enquanto Summer bummer evoca o sentimento de intoxicação com uma pessoa nova. Heroin me parece evocar uma temática semelhante à de Malibu, de Hole: amar um adicto e assistí-lo se destruir sem poder fazer nada.

Groupie love
Desde o vazamento de Ridin' sonho com uma canção oficial com o A$ap Rocky, e Lust for life não trouxe apenas uma como duas colaborações com o rapper. É irônico ver Lana cantando sobre as alegrias do amor groupie quando é ela a famosa milionária com um histórico de namorar caras semi-anônimos, o que prova que olhar para a vida pessoal dela em busca de esclarecimentos sobre as letras não é a estratégia mais interessante.

Tenho ressalvas sobre a necessidade de haver duas músicas no mesmo disco cujo refrão consista na palavra Loooooooooooooove, mas Lana consegue sustentar a façanha. Amo o jeito como ela ofega à la Marilyn Monroe ao dizer "estrela" em "é tão difícil às vezes com uma estrela quando você tem que dividí-lo com todo mundo". Os vocais expressam tão bem aquela situação ambivalente de idolatrar uma pessoa, quando você consegue extrair prazer até do seu sofrimento em ser ignorado.

Resenha de Lust for life, quarto álbum de Lana Del Rey

In my feelings
Embora a Lana seja mais notória pelo mundo encantado que ela consegue criar, eu adoro quando ela revela uma face mais amarga. É o caso dessa música, que começa com uma pergunta retórica ("Será que me apaixonei por mais um otário?") e termina em um acesso de fúria ("Se você fosse eu, e eu fosse você, eu sairia do meu caminho"). Me faz desejar que ela sentisse raiva com mais frequência, ou pelo menos escrevesse mais sobre isso.

Coachella — Woodstock in my mind
Essa é uma música que demorei para conseguir apreciar, mas acabou virando uma das minhas favoritas de Lust for life, apesar da letra. Quer dizer: "Esperar que minhas palavras se transformem em PÁSSAROS e que PÁSSAROS levem meus pensamentos em sua direção". Eu poderia passar bem sem essa versão floreada do modelo de comunicação Shannon-Weaver.

God bless america – and all the beautiful women in it, When the world was at war we kept dancing, Beautiful people, beautiful problems, Change

Uma onda de álbuns e canções pop que se pretendem "politicamente conscientes" tem surgido neste ano, mas os resultados são menos incisivos do que prometem ser. Temos Katy Perry, cujo álbum Witness nos ofereceu uma crítica vaga às redes sociais (Chained to the rhythm), uma diss para a Taylor Swift (Swish swish) e um videoclipe em que Perry aparece sendo servida como comida (Bon appétit).

Harry Styles, no single Sign of the times, pede que a gente pare de chorar (não, obrigada) e diz que temos que sair daqui. Mas onde estamos exatamente? Um problema dessas canções pretensamente "conscientes" é que elas oferecem escapismo e positividade como cura para a situação política atual, sem jamais fazer referência a que situação é essa, nem ao que causou ela em primeiro lugar.

É por isso que a resposta de Lana Del Rey sobre porque fazer um álbum "político" agora não soa convincente. Em uma entrevista à Pitchfork, Del Rey diz que deixou de usar bandeiras dos Estados Unidos desde o governo Trump, já que parecia ok fazer isso no governo Obama, pois todos estavam seguros.

Mas isso é supor que Trump é a origem de todo o mal nos EUA, e que durante o governo Obama não havia opressão de minorias (alguém se lembra de Trayvon Martin, apenas um dos vários jovens negros assassinados pela polícia durante esse período?). Em sua própria origem, os EUA já deixaram uma herança sangrenta com o extermínio de indígenas e o roubo de suas terras.

Como diz Tom Breihan em uma resenha para o Stereogum, "se você está se dirigindo à Lana Del Rey para procurar declarações políticas, você está olhando no lugar errado". Não consigo encontrar nada politicamente interessante em afirmações como "se nos segurarmos à esperança, teremos um final feliz" e uma insistência de que a gente "continue a dançar", nem ao pedido de que "Deus abençoe os EUA", mesmo que ele seja estendido também às "belas mulheres daqui". A ideia de que somos "apenas belas pessoas com belos problemas" ou de que "uma mudança virá" também não me comove tanto.

Isso não significa, é claro, que eu não consiga apreciar essas músicas pelo que elas são capazes de ser: pílulas de felicidade pop.

Tomorrow never came
É evidente a referência aos Beatles, não só pelos vocais de Sean Ono Lennon, tão semelhantes aos do pai, mas nos arranjos e na sequência dos acordos. É uma canção fofinha e nostálgica sobre um relacionamento que não deu certo, permeada por referências a clássicos do rock como Tiny Dancer de Elton John e Lay Lady Lay de Bob Dylan.

Get free
Eu não poderia dizer isso melhor do que a resenha de Breiham:
 "[A música de Del Rey] é sobre sexo, drogas, desejos e sonhos nostálgicos sobre épocas que não nos lembramos, e ansiedades se insinuando para destruir as pequenas bolhas de felicidade que estamos nos esforçando tanto para criar para nós mesmos. E Lust for life representa o momento em que Del Rey ergue os olhos para o horizonte e começa a perceber que existe um mundo lá fora, que a bolha não pode durar".
Get free é a canção que condensa esse momento de explosão da bolha.
Não vou mais caçar arco-íris
E esperar por um fim deles
Os seus arcos são ilusões
Sólidos à primeira vista
Mas quando você os toca
Não há nada para se segurar
É um exercício corajoso, e considerando que os três álbuns anteriores terminaram em uma  nota triste com baladas melancólicas, Get free me faz ansiar pelo que Lana Del Rey vai aprontar para o seu próximo álbum. ✨

Leia mais pensamentos obsessivos sobre Lana Del Rey em Vendi minha alma para Lana Del Rey e emagreci dez quilos chorando e Hey, Lolita, hey: entendendo a ninfeta das canções de Lana Del Rey.

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