O que aprendi vendo todo mundo ser escroto em Girls

O que aprendi vendo todo mundo ser escroto em Girls
Considerando que estou recém-formada, desempregada e morando com os meus pais, assistir as últimas quatro temporadas de Girls de uma vez só me pareceu uma decisão coerente este mês.

Pois bem, Girls é louvada por fazer um retrato genuíno do que é ser mulher ou então gongada por ter um elenco inteiramente branco. Mas para mim definir Girls como uma série sobre uma experiência feminina universal é o que considero o principal erro no modo como ela foi concebida e marketizada.

Em uma entrevista feita à Hollywood Reporter, por exemplo, a produtora executiva Jenni Konner diz que "sabia que [a falta de diversidade] seria um problema, mas na época estávamos tão focados na luta das mulheres".  Nessa articulação está implícita suposição de que raça e gênero são questões separadas. Não há um reconhecimento de que as mulheres de quem se está falando são brancas, e que isso também é falar sobre raça.

Girls trata de uma vivência bem específica: ser uma mulher branca e de família com grana (um perfil demográfico do qual faço parte, é importante falar, e por isso consigo me identificar tanto com a série). É sobre crescer acreditando que você merece fazer sucesso e depois se frustrar ao perceber que não vai ser tão fácil assim – todo aquele lenga-lenga sobre os millennials, que se a gente for pensar bem, é mais uma descrição da branquitude.

Já vi muitas reclamações sobre como os personagens de Girls são insuportáveis, mas eles são tão aberrantes assim? Para mim são só tão escrotos quanto pessoas comuns podem ser. Dunham cria situações complexas nas quais todo mundo está sendo meio babaca, mas também dá para conseguir se relacionar com as motivações de cada um.

Na quarta temporada, Hannah passa no mestrado em escrita criativa e se muda para Iowa, mas não consegue se adaptar. O conto escrito por ela não é bem recebido pelos colegas, que o comparam com "50 tons de cinza" e o definem como sendo sobre "uma garota muito privilegiada que decide deixar alguém abusar dela".

Uma das minhas cenas favoritas dessa temporada é a conversa extremamente desconfortável que Hannah tem com os colegas de curso durante uma festa. "Ser rotulada não é divertido!", ela reclama, e mostra como todos da turma poderiam ter o próprio trabalho julgado como problemático, desde ao estudante asiático fixado em Manic Pixie Dream Girls ao garoto branco e rico que "acha que odiar os próprios pais é uma revolução". Melhor seria se ninguém se colocasse numa posição superior, e em vez disso fosse sincero quanto às próprias limitações. "Eu não quero ser a única que é honesta. Quero que todos sejamos honestos juntos".

Cena de Female Author, terceiro episódio da quarta temporada de Girls

Mas no episódio seguinte, quando Hannah envia uma carta para os outros alunos culpando todos pelo bloqueio criativo pelo qual está passando, fica bem claro que ansiedade dela parte também de uma grande dificuldade em lidar com críticas. É possível concordar com o ponto proposto por Hannah ao mesmo tempo em que dá para reconhecer o quão imatura e autocentrada ela está sendo nessa situação. É para momentos dramatúrgicos como esses que sou grata pelos meus pais pagarem a minha internet.

Essa é grande sacada da Lena Dunham: mostrar o quanto todo mundo pode ser escroto de vez em quando. E que a gente deveria falar mais sobre isso. Mas é difícil lidar com essa proposta, né? Ainda mais em tempos de textões à la "deixa a tia te explicar" e dessa linguagem que a gente está acostumado a usar na internet, mais simplista e agressiva. Quando adotamos esse tipo de fala, nos colocamos como se também não pudéssemos ter ideias, sentimentos ou comportamentos paias. E aí acabamos nos escondendo uns dos outros em vez de nos ajudarmos.

Uma famosa com quem a internet pegou birra recentemente é a Karol Conká. Ressuscitaram uma entrevista dela de 2016 em que ela diz ser bissexual, mas não se imaginar namorando uma mulher. Aí choveram tuites sobre como ela é uma hétero fetichizadora… por falar o que boa parte das mulheres bissexuais sente.

De que adianta conhecer o conceito de heteronormatividade se a gente não consegue aplicá-lo para entender as experiências dos outros? Ainda mais numa entrevista em que tanta coisa interessante foi dita sobre o racismo que a Conká sofre. Em tempo: não acho inócuo o que foi dito por ela, mas não acho tão interessante assim centrar o debate em PAREM A KAROL CONKÁ!!!

É mais fácil reduzir os outros a monstros cruéis do que entender que muitos são só tão problemáticos quanto a gente, e que criticar discursos não é o mesmo que condenar as pessoas que os emitiram. Digo que é mais fácil porque de fato é a minha reação automática, e é algo que tenho buscado trabalhar em mim mesma.

Às vezes problematizações podem partir não de uma expectativa genuína de compreender um assunto, e sim de reduzí-lo para que não tenhamos que interagir com ele. Eu mesma tenho meus momentos de frase-pronta-entre-emojis-de-florzinha (porra, escrevi um texto inteiro sobre um publipost de amor do Duvivier, né?), mas começo a duvidar cada vez mais da plenitude daquilo que digo.

Melissa Broder, uma das minhas escritoras favoritas, é frequentemente acusada de "glamourizar depressão" por escrever sobre o assunto de uma forma bem-humorada. Adoro a resposta que ela faz a essa crítica.
É errado falar de onde estou quando é um lugar imperfeito? Quando eu digo "EU SOU ZOADA!"  de um jeito que aceita onde estou (e onde outras pessoas também estão), não estou criando uma propaganda para ser zoado ou tentando converter ninguém. Estou reportando das trincheiras: acendendo uma luz para quem está aqui também, para que nós possamos ver uns aos outros
Até para não cairmos na ilusão de que todos que têm alguma consciência política são perfeitos, precisamos abrir espaço para nos assumirmos problemáticos. ✨

Outra série que adorei assistir por conta dos personagens complexos é Cara gente branca. Esse texto da newsletter da Stephanie Ribeiro faz uma análise bacana, vale a pena a leitura.

Leia mais em Querida internet, problematizar é diferente de odiar e Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro.

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