Bissexualidade feminina: mera curtição?

Garotas bissexuais não querem só se divertir!
Garotas bissexuais não querem só se divertir!
A Capricho foi revista proibida lá em casa durante minha pré-adolescência, porque meus pais (sábios) consideravam o material muito "explícito" em comparação com as finadas Witch e Smack! que eu consumia. Eu me atinha a folhear as páginas quando ia na banca, em busca das informações tão cruciais que eu estava perdendo sobre ser uma garota.

Quando finalmente alcancei a idade para comprar uma Capricho, a revista havia perdido todo o apelo de "descolada" para mim. Eu já havia sido sugada pela comunidade pós-punk do Tumblr, tinha assumido para mim mesma a minha bissexualidade, estava começando a pesquisar sobre feminismo... A Capricho me parecia apenas mais um produto midiático conservador tentando enfiar feminilidade goela de meninas adolescentes abaixo.

Imaginem então a minha surpresa quando recentemente encontrei a matéria Meninas que beijam meninas, publicada em 2013 no site da revista e provavelmente muitos anos antes na versão impressa, tendo em vista as referências a t.A.T.u e Britney Spears. Estaria meu eu adolescente enganado? Teria a Capricho na verdade sido uma revista progressista, que incentiva meninas lésbicas e bissexuais a aceitar a própria sexualidade? Vejamos.

"Uma demonstração de afeto moderninha"


O subtítulo da matéria começa anunciando quais seriam as razões a levar uma garota a beijar outra: "Curtição. Desafio. Provocação". Os motivos "são muitos", menos genuinamente sentir atração por mulheres, pelo visto. O malabarismo argumentativo chega ao ponto de atribuir a origem da bissexualidade a uma "moda" que surgiu a partir de editoriais fashion dos anos 90 (sério mesmo? antes disso nenhuma mulher beijava outra?).

Não tem como saber muito bem se as garotas entrevistadas são bissexuais ou lésbicas. Como somos ensinadas que o certo é se relacionar com homens, namorar e ficar com eles não necessariamente indica hetero ou bissexualidade. Mas meu foco aqui no texto será sobre bissexualidade, que é o tema sobre o qual posso falar com propriedade.

Mulheres bissexuais costumam ser retratadas como simplesmente mais sexualmente liberadas do que as heterossexuais. Na matéria, por exemplo, as que desaprovam o beijo entre menina são definidas como garotas que não se liberaram sexualmente o suficiente para entender que se trata de uma "mera curtição".

O ato de ficar com mulheres é frequentemente tratado como apenas mais um acessório a tornar bissexuais atraentes para homens. É só algo para apimentar a relação com um cara hétero, e não um interesse genuíno em se relacionar com mulheres.

Já escrevi sobre como o patriarcado empurra mulheres bissexuais para formarem vínculos emocionais exclusivamente com homens. A lógica é a seguinte: se você precisa mesmo ficar com mulheres, que seja então para agradar os caras.

Por isso a opinião de meninos sobre o assunto se torna tão necessária ao texto que a Capricho pretende construir. Afinal, beijar uma garota é algo que vai diminuir seu valor perante a um cara? Podem ficar tranquilas, meninas, porque na verdade eles acham "o máximo" assistir. “Eu acho que não tem coisa mais legal do que ver mulher beijando mulher", diz um dos entrevistados.

Embora a matéria abra declarando que muitas meninas ficam com mulheres para se exibir para outros caras, uma das entrevistadas, Bruna, afirma ficar revoltada com os rapazes que gostam de assistir. O desconforto que Bruna sente não é explorado pelo texto. A atração que homens sentem por assistirem duas meninas juntas é tida como algo natural, apenas uma verdade masculina que não merece questionamento. O mesmo é válido para o fato de boa parte deles não considerar traição se a namorada ficar com outra menina.

Em outro trecho, fala-se sobre bissexualidade ser uma estratégia de marketing para alavancar carreiras de artistas pop. É verdade sim que colocar duas mulheres se beijando em um clipe gera bafafá, mas a revista trata isso de uma forma pretensamente neutra, sem criticar porquê acontece, como se fosse natural uma orientação sexual ser apropriada para vender discos.

A tal da falsa neutralidade


"Escrita que apaga a si mesma", um conceito criado por Jane Caputi e expandido por Mary Daly, fala sobre aqueles textos que parecem neutros, mas estão construindo um álibi para a ideologia que pretendem promover. É o caso dessa matéria aparentemente inócua da Capricho.

Se à primeira vista ela pode parecer mente aberta, na verdade ela está reproduzindo vários preconceitos sobre bissexualidade e lesbianidade. O propósito principal é tranquilizar meninas de que elas podem sentir atração por outras mulheres sem cair nas tão temidas categorias de "bissexual" ou "lésbica".

Ao longo do texto podemos ver depoimento de meninas confusas, que não contam com instrumentos para descrever a própria experiência ou parecem sentir muita necessidade de se afirmar como heterossexuais, como nesse relato:

Nana diz que gosta mesmo é de meninos, mas acha legal poder ficar com outras meninas, mesmo sem saber direito o porquê. “Não sei por que fico com outras garotas. Acho que tem um lado de querer se afirmar, de se mostrar livre."
Nana, você fica com garotas porque você gosta de garotas! Está tudo bem, juro.

Outro caso é o de Bruna, que define seu primeiro beijo com uma mulher como "uma brincadeira".

O "especialista" convocado para "explicar" esse comportamento corrobora essa opinião: “Essa onda de meninas beijarem as amigas não me parece um comportamento sexual e sim social. É mais para mostrar o quanto elas são liberadas, sem preconceitos. É um desafio para quem faz”.

Tudo isso já suficiente para formar um show de horrores, mas tem mais! Uma das preocupações elencadas pela matéria é se beijar meninas seria uma "porta para o homossexualismo". A explicação é a de que tudo depende da "relação com o sexo oposto", porque claramente uma garota só pode gostar de outra se for mal resolvida com homens.

O "especialista" conclui alertando de que adolescentes que aderirem à tendência podem "se arrepender" e "pagar caro". Sério mesmo? Qual seria a grande punição que aguarda uma menina que beija outra? Atravessar de vez a porta para o "homossexualismo" e nunca mais voltar?

Esse tipo de artigo não oferece ferramentas para que adolescentes possam articular as próprias identidades. Em vez disso, confunde e silencia. Felizmente, garotas adolescentes hoje podem ter acesso a produtos bem diferentes do que as revistas femininas que eu comprava na banca, como o site da Capitolina, e a própria Capricho parece ter tomado outros rumos. Se vocês também tiverem recomendações de textos bacanas sobre bissexualidade, compartilhem nos comentários! ✨

Se você curtiu esse post, acho que vai gostar também de Você não está tão a fim dele e Todo dia eu tenho que chorar um pouco.

Nova aqui no blog? Talvez você ainda não tenha lido Bissexual? Sim. Lesbofóbica? Também e O beijo entre Anitta e Ísis não é tão inofensivo assim. Você pode curtir minha página no Facebook ou me seguir no Twitter para acompanhar novos posts e outras besteiras que publico. 

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