Vendi minha alma para Lana Del Rey e emagreci cinco quilos chorando

Lana Del Rey é machista?

Tudo que amo eu já odiei. Isso vale para unhas compridas, espinafre e também para Lana del Rey, minha cantora favorita no momento. Aliás, preciso fazer uma confissão: já fui uma pessoa musicalmente esnobe. Embora minha formação musical tenha começado com Rouge e videoclipes da Britney Spears, aos 13 anos eu estava completamente convertida ao hard rock. Isso significava reprimir qualquer música que não tivesse solos de guitarras complexos e cujo vocalista não tivesse sido acusado de estupro pelo menos duas vezes. 

No ensino médio a coisa foi mudando e comecei a associar Sweet Child O'Mine aos garotos irritantes a minha volta, que emitiam "Ronaldo" a cada três segundos e achavam "viado" a palavra mais engraçada do vernáculo brasileiro. 

Virei então uma esnobe musical reversa: desprezava qualquer exibição de virtuosismo. Ou seja, rock progressivo, hard rock e qualquer música cujo vocalista não fosse absolutamente desafinado. Acusava quem cantava bem de se preocupar mais com a qualidade técnica do que expressiva. Era sacrificar a "arte" pela vaidade. Como vocês podem ver, já fui uma pessoa com alma e princípios. Ou seja, alguém bem mais chata.

Esnobes musicais reversos, apesar de antipatizarem com virtuosos, não se importam com pop, desde que ele seja honestamente genérico. O problema é quando um artista pop tenta convencer os outros de que é isso: um artista. Antes de vender minha alma a Del Rey, ela me soava como alguém que tentava demais. Era pop para quem não gostava de pop.


No ano em que Video Games saiu, recebi o vídeo por algum amigo e logo o desmereci como "entediante". Acreditava que Lana Del Rey seria uma nova Adele, cujos malabarismos vocais eu encarava como uma afronta pessoal. Não tive muito interesse em acompanhá-la. 

Minha opinião mais apaixonada era quanto ao uso de referências a Lolitanas letras, o que eu considerava – e ainda considero – romantização de estupro e pedofilia. Mas pouco a pouco fui me rendendo às músicas. Baixei Born to die. Baixei Paradise. Baixei a discografia completa não lançada. Decorei as letras. Passei a assistir os videoclipes com uma frequência pouco saudável. Comecei a ler entrevistas na internet.

 Quando percebi, era fã de Lana Del Rey, o que é uma coisa muito triste de ser. Agora, estou sempre chorando, seja por ser ignorada por executivos de 60 anos ou porque não consigo colocar minha lente de contato com minhas unhas de 40 milímetros sem furar os olhos.

 Lana Del Rey cria um mundo onde John F. Kennedy fica com Marilyn Monroe. É um universo de festas tristes, gangsters, homens de negócios agressivos, e mulheres belas e frágeis. E eu gosto disso, mas não tenho certeza se é o que realmente deveria gostar.

O problema com Del Rey é que não consigo entendê-la. A exploração da estética americana, a glorificação do materialismo e da fama, a celebração da violência: não sei se são ornamentos irônicos, referências sombrias ou simplesmente uma glamorização perniciosa. Del Rey é uma artista essencialmente pós-contemporânea. Com isso, não quero só dizer que ela tuíta tudo em letras maiúsculas. Toda a sua obra parece um grande apanhado de referências a outras.

No ensaio "E unibus pluram: television and U.S. fiction", David Foster Wallace argumenta que a ironia é perigosa porque ataca a tudo mas se mantém numa posição inatacável, pois não propõe nada que possa ser escrutinado pelo público. Ao costurar diversas referências, Lana Del Rey consegue fascinar, mas não expõe nenhuma proposição. É por isso que é tão difícil criticá-la. Toda crítica é só uma possibilidade evanescente, e não uma acusação concreta.
Foto de Neil Krug
Se podemos nos isentar da culpa de apreciar canções sobre menores de idade seduzindo homens adultos com o argumento de que se tratam de narrativas ficcionais, a cantora insiste que todas as suas canções são pessoais e autobiográficas. Del Rey reproduz um imaginário sexista ou o subverte ao cantar sobre ele de forma autoral? Ela está dando voz e protagonismo a personagens femininas que estão em relacionamentos abusivos ou ela está glamurizando a submissão da mulher? Eu não sei, mas isso não me impede de continuar escutando seus discos.

Em Ultraviolence, o segundo disco de Del Rey, os temas mudaram de Old Hollywood, Lolita e hip hop para a geração beat dos anos 50 e a cena musical da costa oeste. Meu sentimento de reticência em relação às letras, no entanto, não mudou.

  Shades of Cool, por exemplo, é o relato pungente do sentimento de invisibilidade e abandono de uma mulher apaixonada por um homem frio e distante, mas a ornamentação com imagens agressivas (Califórnia e Chevy Malibu) perigam promover uma estetização da tristeza. Talvez tudo seja cinemático demais para ser de fato honesto. "Estou triste e isso é belo", um sentimento que se aproxima do martírio cristão ou do ultrarromantismo. O problema dessa visão é um escapismo centrípeto. Chafurdar na própria miséria pode ser prazeroso até um certo ponto, mas resolve pouca coisa.

Brooklyn Baby, por outro lado, faz referências a poesia e discos jazz que servem para sardonizar a narradora, porém é uma ironia afetuosa: Del Rey também se compadece com a condição de uma personagem que, por ser mulher e jovem, é "julgada como a um livro de figuras, pelas cores, como se tivessem esquecido de ler".

 Ultraviolence é possivelmente a letra mais problemática do álbum. Quero acreditar que é o relato de uma vítima de violência doméstica, mas sei que ela também pode ser lida como glamurização de relacionamentos abusivos.

Alguém pode argumentar que não há nada mais empoderador do que declarar a vontade de ser submetido, ou fazer como Deleuze e afirmar que a submissão é uma forma de subversão da moral vigente. Tenho meus receios quanto a isso. Afinal, se a submissão feminina é algo pregado pelo status quo, declarar seu desejo por submissão pode ser assertivo, mas é tão subversivo quanto um par de meias velhas.

Isso não significa que Lana Del Rey não seja subversiva de outras formas. Numa indústria na qual Britney Spears não tem nem mesmo direito legal sobre si mesma, manter-se no controle da sua produção artística não é um feito fácil, ainda mais para uma mulher. As gravadoras Interscope e Polydor não queriam lançar o disco produzido por Auerbach, e chegaram a exigir que del Rey se reunisse com o produtor de Adele para mudar as músicas.

"Quando toquei West Coast para a gravadora, eles não ficaram nenhum pouco felizes (...). Eles ficaram tipo: 'Nenhuma dessas músicas são boas para o rádio'", contou a cantora para o jornal britânico The Guardian. Eu fico feliz que ela tenha insistido no projeto, embora ele signifique que terei que investir em um suprimento vitalício de rímel à prova de lágrimas. Não se pode ter tudo.

 As referências de Ultraviolence

"He hit me and it felt like a kiss" – Ultraviolence

Canção do grupo feminino dos anos 60 The Crystals, produzida por Phil Spector. Aparentemente violência doméstica não foi um tema muito cativante para os VJs de rádio e a música fez pouco sucesso na época. A banda Hole, liderada por Courtney Love, fez um cover acústico em 1995.

And I love her - West Coast
Del Rey pega emprestado o riff da música dos Beatles para o refrão de West Coast.

"Ooh baby ooh" – West Coast 
O refrão "ooooh baby oooh" foi comparado a Edge of Seventeen, de Stevie Nicks, cuja guitarra foi sampleada em Bootylicious, das Destiny's Child.

"They've got (...) their golden gods and rock 'n' roll groupies" – West Coast
De acordo com a mitologia do rock, o vocalista do Led Zeppelin Robert Plant berrou a frase "I'm a golden god!" num balcão de hotel ou no palco de um show. A cena foi incorporada no filme Quase Famosos, que usa Zep como referência para abordar o jornalismo musical e o relacionamento entre groupies e músicos nos anos 70.

"Talking 'bout my generation" – Brooklyn Baby
Referência a My Generation, da banda inglesa The Who, que considero bastante chata. Prevejo um artigo apaixonado sobre ela futuramente [edit: três anos depois, The Who continua me fazendo bocejar].

"The sun also rises" – Money Power Glory
Trecho do livro bíblico Eclesiastes. Também é o título de mais um livro de Ernest Hemingway no qual ele fala sobre impotência sexual e touradas.

Este texto foi publicado originalmente em julho de 2014 no extinto site Quadra 1001. Desde então, fiquei tão encucada com Lana Del Rey que ela acabou virando tema do meu trabalho de conclusão de curso. Elaborei ideias mais claras sobre o que sinto em relação à música dela e esse artigo não expressa mais exatamente o que eu penso sobre o assunto, mas ainda assim ainda acho que ele traz pontos relevantes. Espero escrever mais sobre a Lana Del Rey em breve! 

Leia mais em Além de Kymie vs. Taylor: a narrativa misógina do Famousgate e Por que não deixamos Britney Spears envelhecer?

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