Devo continuar falando com o ex abusivo da minha amiga?

Devo continuar falando com o ex da minha amiga?
Detalhe de Dois nus na floresta, de Frida Kahlo
Este texto não é sobre mais um relacionamento que acabou devido às vicissitudes da vida. Estou falando da sua amiga que namorava um cara abusivo. Isto é, ele fazia alguma ou todas dessas coisas: manipulava psicologicamente, controlava, xingava, humilhava, agredia. Felizmente, ela conseguiu sair desse relacionamento. Mas você e o cara em questão também eram amigos, e por algum motivo cortar esse vínculo parece excessivo.

"Não quero tomar lados" é uma desculpa recorrente, uma versão mais moderninha de "em briga de marido e mulher não se mete a colher". Mas manter amizade com um cara que abusou da sua amiga é mesmo uma atitude tão isenta assim? Enquanto você dá rolê com ele, ela está sozinha em casa, já que não quer ir em lugares onde sabe que ele está.


É a sua amiga quem provavelmente perdeu parte das amizades durante o isolamento provocado por estar em um relacionamento abusivo, e mais uma parcela de amigos após o término. É ela, a quem você declara apoiar e amar, que vai receber a alcunha de fresca, imatura, rancorosa. É ela que vai ser acusada de se isolar e de melar o rolê, como se querer evitar contato com uma pessoa que te traumatizou fosse uma exigência egoísta.

O próprio ato de declarar que prefere ficar em cima do muro já é uma forma de duvidar do relato da sua amiga, como se as coisas não fossem tão claras assim, o abuso não tivesse sido "grave o bastante" ou de fato acontecido. No fim das contas ele é um cara bacana, e ter abusado de uma pessoa que você ama não é um motivo válido o suficiente para você questionar a possibilidade de que ele não seja digno da sua companhia.

Uma das grandes sacadas do patriarcado é colocar mulheres para performar rituais de violência umas nas outras, como as mães chinesas que enfaixavam os pés das próprias filhas. Isso serve para esconder quem é que se beneficia verdadeiramente dessas práticas (spoiler: são homens). É por isso que nos posicionar como feministas não implica apenas identificar as violências e abusos que homens cometem contra nós – também devemos nos atentar ao sofrimento que causamos a outras mulheres.

Muitas de nós acabamos querendo participar do clubinho feminista como forma de nos promover e aliviar nossas próprias ansiedades, sem pensar no que podemos fazer pelas outras mulheres. Manipulamos a linguagem que aprendemos com o feminismo para nos aliviar da responsabilidade pelas nossas próprias ações e do sentimento de culpa que surge quando sabemos que não estamos agindo da forma mais adequada.

Escolhemos continuar andando com abusadores enquanto mandamos mensagens supostamente preocupadas e apoiadoras para as vítimas. Evocamos "sororidade", constrangendo-as a não criticar nosso comportamento isentão, pedindo por silêncio. A carta da sororidade acaba servindo como um falso atestado de inocência. É um jeito mais politicamente correto de dizer "não tenho nada a ver com isso, pare de me cobrar".

Manter a amizade com esses ex-namorados abusivos contribui para a manutenção da imagem que eles têm de si mesmos como "caras legais". É uma forma de validar o comportamento deles, de permitir que eles tenham voz para propagar a "versão deles" dos fatos. Esses abusadores nunca serão responsabilizados pelo que fizeram e permanecerão a vida toda cometendo os mesmos abusos se continuarem sendo validados.

Se tentar empatizar com outras mulheres não te comove o suficiente, pense que você não é especial. Por mais que a amizade de um cara possa fazer com que você se sinta querida, é uma sensação ilusória, pois se baseia na sua própria habilidade de negar a realidade e de ignorar os abusos que ele cometeu. Ele te acha tão vulnerável quanto as mulheres que abusou, e você pode muito bem ser a próxima.

Obrigada a Amanda, Mary Daly e Andrea Dworkin.


Leia mais em Desconstruindo meu namorado e Você não está tão a fim dele. Para prestigiar a humilde página desse bloguinho no Facebook, é só vir aqui.

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