O poder do pensamento negativo

O poder do pensamento negativo
Em setembro, o Deixa de Banca ultrapassou 1,1 mil curtidas e alcançou mais de meio milhão de acessos no total  – o que é o mesmo que nada na blogosfera atual, mas é muito para o que esse blog se propôs a ser desde que nasceu. Boa parte de vocês deve ter pintado por aqui por conta dos textos que escrevi sobre gênero, porque são esses que viralizam. Mas, antes de tudo, o Deixa de Banca foi um espaço criado quando eu estava na adolescência e queria reclamar dos meus problemas de patricinha insolente, como não ter passado no vestibular, ainda ser virgem, ter crushes em poetas mortos etc. 

Eu cresci com a internet. Sou filha do Orkut, tive Fotolog temático com imagens do Keroppi (esse sapo estrábico da Sanrio), escrevia sobre meu dia para ninguém em um blog que te saudava com música em MIDI. Naquela época, o blog era mais um diário do que uma estratégia para consolidar sua marca pessoal e angariar patrocinadores. Aí, em algum momento, surgiram as blogueiras de moda, de beleza, de esmalte, as garotas da Capricho e afins – você acompanhou também essa história toda, imagino.

A questão é que eu sempre me senti meio deslocada nisso tudo. Não quero vender batom, roupa nem produto pra cabelo (não porque eu me ache superior a quem faz isso, só não é do meu interesse); adoro cozinhar mas faço tudo no olho e não sigo receitas; tenho lá as minhas preocupações estéticas mas zero paciência de ficar postando look do dia. Enfim, não me encaixo em nenhum desses modelos de blogs rentáveis que a gente vê por aí.

Quero visualizações e leitores, óbvio, ou então não estaria atualizando essa bagaça aqui com a costumeira irregularidade, mas também sinto saudade de postar títulos absurdos e nada caça-clique; de escrever um texto sem ter nenhuma opinião a desenvolver, só pelo prazer de falar besteira; de não ficar me relendo cinquenta mil vezes procurando buracos na minha argumentação que podem ser usados para invalidar o que eu tentei propor. 

O que me preocupa com essa viralização de textos é que nunca foi minha pretensão entrar para o rol das "blogueiras feministas" e ser ativista virtual: eu só queria falar sobre coisas que não vi ninguém falando. Não sou modelo político de comportamento nem opinião, meus posts antigos estão aí pra comprovar meu talento para ser superficial e dramática é estratosférico. Eu não quero cair na armadilha de ter de provar ser uma "boa feminista" para quem ainda promove essa dicotomia e espera que, por acreditar nos direitos das mulheres, eu tenha a obrigação de ser moralmente perfeita.

Comecei a escrever porque eu gosto de rasgar as coisas e expor elas, cruas, como estão ali; e fui, por narcisismo ou intimidade, o meu primeiro objeto de estudo. Porém, alguém pode chegar aqui por meio de um textão idiota meu falando sobre como declarações públicas de amor feitas por homens podem ser coercitivas ou desconfortáveis para mulheres, e logo em seguida ler sobre minhas frustrações amorosas ou minha incapacidade de pensar positivo. Esse leitor pode enxergar nisso não uma exposição sincera mas apenas a comprovação de todos os piores estereótipos sobre feministas. Ao emitir uma opinião, eu tenho meu direito a uma subjetividade complexa ainda mais reduzido. 

Nessas últimas semanas, eu fui muito xingada de "frustrada", o que me incomodou. Minha opinião só seria válida se eu fosse uma pessoa feliz? Se eu fosse feliz eu não teria opiniões críticas, ou então ainda enxergaria problemas, mas não me importaria o suficiente para escrever sobre eles? Frustração não é um sentimento legítimo? Frustração não pode ser um sentimento criativo e fértil? As coisas que eu enxergo a partir da minha frustração não são reais? Bom, vocês me digam, eu não sou uma comentarista anônima de blogs mais ou menos desconhecidos. Mas sim, quero deixar claro que sou uma pessoa frustrada com uma dezena de situações, algumas graves, outras superficiais. Não enxergo isso como um problema, um sinal de que eu precise de ajuda ou seja incapaz de cognição. 

Veja bem, eu escrevo, e tenho essa teoria de que escritores escrevem porque são socialmente inaptos e só conseguem se expressar depois de comer uns cinco bombons, ouvir o The Bends inteiro e passar pelo menos três horas em frente a um monitor. Também tenho a teoria de que crio abstrações generalizando meu comportamento para me proteger de entrar em contato com as minhas próprias emoções – na verdade essa teoria é do meu ex-terapeuta. 

"Eu continuo tentando encontrar modos de me fazer parecer atraente nos meus poemas. Quero dizer, realmente atraente, mais atraente do que todo mundo", diz Richard Hell. Talvez, ao escrever, eu consiga expressar quem eu realmente sou, ou quem eu realmente gostaria de ser, ou a futilidade de esperar que um texto seja capaz de condensar uma identidade, até porque identidades nem mesmo existem. Talvez você consiga entender isso, e nesse breve momento estaremos unidos. É o que eu tento fazer aqui. Obrigada por participar. ✨

Leia mais em Querida internet, problematizar é diferente de odiar e Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro

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