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QUERIDA INTERNET, CRITICAR É DIFERENTE DE ODIAR


Não me levem a mal – em determinadas circunstâncias, ódio é um sentimento legítimo, razoável, criativo e faz bem para a pele. Mas criticar algo não necessariamente significa que eu odeio aquilo, nem que estou pedindo para que você odeie. Como bell hooks diz brilhantemente, é possível criticar uma coisa e mesmo assim apreciar aspectos dela. 

Ou seja: você pode criticar algo que você gosta! Você pode curtir alguns aspectos e achar outros nem tão legais assim! Isso é totalmente possível! Minha apreciação estética e emocional de uma obra não a coloca acima de interpretações quanto ao seu conteúdo ou ideias porventura nocivas que ela propaga.

Por exemplo, eu adoro Nove semanas e meia, mas isso não me impediu de escrever uma análise criticando a representação de estupro nesse filme. Embora Lana Del Rey seja uma das minha cantoras favoritas, eu não acho tão bacana assim uma garota branca colocar um cocar de índio pra parecer descolada em um clipe. Isso faz de mim uma pessoa hipócrita? Não, sou apenas humana: complexa e capaz de ambivalências (e com um gosto meio ruim por filmes eróticos).

"Pense sobre as contradições e complexidades que assaltam as pessoas", do excelentíssimo Saved by the bell hooks.  

Você pode achar que criticar algo e continuar gostando disso é hipocrisia, mas gostaria que refletisse se realmente é possível viver num mundo onde todas as coisas que consumimos e gostamos estão de acordo com nossas ideologias específicas. Podemos ir além: você quer viver em um mundo onde toda análise só pode partir de um lugar de ódio e desprezo e representa automaticamente uma condenação? Onde as únicas posições permitidas devem se encaixar em pólos como contra ou a favor, bom ou ruim, certo ou errado, ignorando os espaços férteis entre eles?


Afinal de contas, fazer uma análise crítica de um filme destacando aspectos que considero negativos não é o mesmo que ditar que as pessoas não deveriam vê-lo – a não ser que eu o diga explicitamente,  esteja organizando um boicote, ou seja membro de um órgão de censura (inexistente!) do governo. Não quer dizer que odeio a equipe que trabalhou no filme ou as pessoas que gostaram dele. E, por deus, não é um pedido para que assassinem o diretor ou criem leis impedindo as pessoas de assistir as suas obras. 

É claro, posso criticar algo que odeio*, mas mesmo assim, meu ódio per se não invalida os pontos levantados – nem deveria te impedir de considerá-los. Veja bem, eu disse considerá-los, não concordar com eles. Uma análise crítica não está pedindo para que você concorde com ela, muito menos te mandando fazer isso.

Criticar é uma tentativa de trazer à tona algo até então oculto e um convite para que você participe desse esforço. Análises podem ter falhas argumentativas, serem incompletas ou desonestamente enviesadas, mas isso não significa de que deveríamos parar de "mimimi", "problematizar" e "encher o saco", nem que as pessoas que estão tentando fazer críticas são "haters" ou "frustadas". É sinal de que devemos nos engajar mais no debate para construir novos sentidos.

Pessoas podem escolher sim se isolar ou evitar entrar em contato com determinados materiais que provoquem mal-estar, com os quais elas não concordam eticamente ou que simplesmente sejam desinteressantes. Não estou advogando que temos a obrigação de assistir, ler e escutar TUDO. O meu recado é: o objetivo principal de autores de artigos "mimimi" não é limitar a sua liberdade de consumir cultura, e sim fazer você refletir. Isso é mesmo assim tão terrível?

*Por exemplo, feministas são consideradas "mulheres que odeiam homens" e por isso não lhe deveríamos dar ouvidos. Mas uma feminista pode muito bem odiar homens (como instituição, o que é bem diferente de odiar cada homem que existe no mundo) e construir ideias valiosas, não apesar do ódio que sente, mas a partir dele. 

Para entender mais: Parem de mimimi? Consumir mídia de forma crítica é uma habilidade, no Verberenas. 

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