Estupro não é recurso narrativo para sua comédia romântica pessoal


Não precisamos de vocês: Bikini Kill
"Não precisamos de vocês", recado do Bikini Kill.

"Como foi transar com uma vítima de estupro", o texto viral desse final de semana, começa fazendo uma alusão à coluna publicada por Duvivier na Folha sobre o relacionamento com a cantora, atriz e ex-namorada Clarice Falcão. O autor, Nero, contrasta a descrição de Clarice com a da personagem feminina, aspirando, suponho, a subverter características associadas a vítimas de estupro: ela não é "frágil", nem "tem olhos assustados". Na verdade, a  "vítima de estupro" é intimidante, mais velha, "fodona", porque "doce". A contradição promete lirismo, mas entrega apenas uma afirmação já batida do que é uma mulher desejável.


Até o sétimo (!) parágrafo, o autor constrói uma narrativa que ecoa todo o repertório gasto de comédia romântica já conhecido por nós: um encontro numa viagem, uma sintonia inesperada, uma canção que se faz de tema do casal, o primeiro beijo na praia. Meu olhar aqui tende a ser parcial; não tenho paciência para esses recursos clichê, as metáforas relacionando água e liberdade, os exageros (ir rápido demais rumo ao beijo é o "maior pecado romântico"), as expressões prontas ("sintonia pura"). Gosto das minhas comédias românticas pausterizadas e com o mínimo de poesia possível.

Desgosto à parte, entendo o fascínio desses elementos, e o autor certamente também. Não podemos ter essa ingenuidade de supor que o texto é um relato espontâneo, uma confissão desinteressada. Trata-se de um artigo produzido sim para gerar visibilidade, likes e compartilhamentos, atrair público, criar debate. Isso é pecado? Claro que não. Significa que os sentimentos descritos ali são falsos? Também não. Mas é preciso ter em mente que "Como foi transar com uma vítima de estupro" é um trabalho criativo, sob a responsabilidade do autor e da revista digital que o publicou, e que está sim passível de críticas. No caso, o apelo do texto está justamente em aliar uma narrativa romântica, um tom confessional e um tema de direitos humanos, mais precisamente, de gênero. Temos, então, um viral.

A confissão do texto, para quem tem uma certa bagagem feminista, não traz nada de novidade. Durante a experiência de "transar com uma vítima de estupro", o autor tem seu grande insight: os comportamentos que tinha durante o sexo fazia parte do espectro coercitivo o qual sustenta a tal da cultura de estupro. Vamos voltar no tempo? Dworkin já tinha declarado isso nos anos 70 ao analisar a pornografia e a literatura erótica ocidental e concluir que violência e sexo são sinônimos na sociedade patriarcal. O sexo, segundo Dworkin, era construído como uma ferramenta para que o homem pudesse provar o seu poder. Colocando assim, é cru; até mesmo agressivo; uma horda de homens estaria se levando – e se levantou – para dizer: mas nem todo homem!

"Como foi transar com uma vítima de estupro" é um texto tão surpreendente assim para quem tem acesso ao Facebook e à miríade de tretas políticas que ele oferece? Todos os comentaristas do sexo masculino passaram batido pelos vários posts e textos escritos por mulheres afirmando que homens são estupradores em potencial e que cultura de estupro é uma questão emergencial? Sim, essa é a mesma mensagem do texto publicado na Trendr, mas vários homens estão lá nos comentários elogiando o conteúdo e agradecendo pela reflexão. Não é o mesmo que rola quando mulheres começam a discussão. O custo de ter um problema social como o estupro reconhecido é que ele precisa ser pautado por um homem por meio de uma narrativa romântica?

O autor concede que, embora tenha considerado que estava "libertando" a garota, percebeu que estava sendo narcisista e não era esse o caso (a narrativa de que uma boa transa cura traumas de abuso sexual, porém, permanece no texto). Eu acho bacana que as pessoas tenham capacidade de reconhecer e revelar os próprios comportamentos moralmente questionáveis. Mas por que quando isso é feito por um homem, principalmente a partir da construção de uma narrativa romântica, o cara é louvado como "sensível"? Sinceridade e sensibilidade são coisas diferentes. Sensibilidade seria não transformar o trauma que uma garota escolheu dividir com você em uma história de romance e emancipação (não apenas da mulher que sofreu um estupro, mas do homem que se libertou do próprio machismo!).

Ok, muitas pessoas leram, se emocionaram, mudaram de ideia. Agora, vamos aproveitar o gancho dessa discussão para ler mulheres? Começo recomendando Dworkin: 24 horas sem estupro. Não tem beijo na praia nem trilha sonora indie, mas vale cada segundo. Prometo.

P.S.: Eu não acredito que homens não podem participar da discussão (o discurso da Dworkin, por exemplo, exige que homens se mobilizem), mas eles precisam fazer isso com muito cuidado. A crítica aqui não é feita para pedir que homens parem de se manifestar sobre machismo, quero apenas evidenciar que 1) o discurso de homens ainda é visto como mais relevante do que o de mulheres, que são as afetadas diretamente pelo problema; 2) o destaque foi dado a uma narrativa que romantiza o trauma do estupro. No mais, acho legal que a cultura de estupro esteja sendo discutida e não nego que muita gente tirou reflexões produtivas do texto.

Para complementar, um trecho da pontualíssima resposta do Sapataria, "Como foi transar com uma mulher":"O que você relata no seu texto não é uma conexão com a mulher cujo trauma é o tema central. Você relata a conexão que você formou com o estuprador dessa mulher, na sua cabeça, enquanto fazia sexo com ela e analisava seus atos e percebia que talvez ele não fosse tão irracional assim." 

Mais um link interessantedessa vez da Ana Lima, lá no Medium, sobre a perspectiva de uma sobrevivente de estupro em reiniciar a vida sexual: "Nem toda vítima de estupro se anula ao sexo depois do trauma. Nem toda vítima de estupro consegue ter outra relação depois do trauma. Uma vítima não é igual a outra."


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