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ALÉM DE KIMYE VS TAYLOR: A NARRATIVA MISÓGINA DO FAMOUSGATE


Nesta semana, sentimos um prazer enorme ao descobrir que o mundo de Taylor Swift não envolve apenas cookies caseiros, visitas a fãs com câncer e pseudo-feminismo afável. Não, Swift é extremamente calculista com a própria imagem, e isso inclui mentir.

Kim Kardashian se aproveitou do Dia Nacional da Cobra e lançou no snapchat os vídeos que provavam a versão de Kanye West sobre a polêmica da canção Famous. Taylor Swift havia aprovado a letra "Acho que Taylor Swift e eu ainda faremos sexo". No caso, porque West teria tornado-a famosa.

Trata-se de uma referência sobre como West subiu no palco do Video Music Awards de 2009 enquanto Swift recebia o prêmio de Melhor Videoclipe e disse que a cantora não merecia ter vencido. O clipe concorrente de Beyoncé, Single Ladies, era melhor executado, mais popular e icônico, mas a artista negra foi preterida pelo chocho You Belong With Me de Taylor.

O mesmo se repetiu no ano passado, quando Swift levou o Grammy de Melhor Álbum por 1989, desbancando o revolucionário e criticamente aclamado To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamarr. Kanye West enxerga em Taylor Swift o rosto do privilégio racista: ela é mais uma artista branca que não faz nada tão bom quanto outro negro, mas mesmo assim consegue ter mais destaque. Ele odeia Swift simbolicamente, mas acaba atacando-a pessoalmente – e de forma misógina. 

Aqui não pretendo defender Taylor Swift como um ser humano perfeito e ético. Swift é uma pessoa branca e rica que nada em uma piscina de privilégio, mas também é uma mulher. Kanye é um homem negro e de origem periférica. Qualquer tentativa de enquadrar isso em uma história de vilã e mocinho vai deixar de lado as complexidades que precisam ser consideradas. E pode nos fazer cair na armadilha de acreditar que Taylor mereceu ter sido chamada de vaca, porque ela aceitou previamente a letra, porque ela mentiu, e afinal, o que ela estava esperando de um rapper? "É só como eles chamam a gente", justificou Kim em uma entrevista para a revista GQ.

Sim, racismo é um dos principais motivos pelos quais Kanye é visto como insuportável por se proclamar o Deus da música, mas isso não exclui o fato de que ele age de forma babaca e machista, várias vezes, inclusive com a própria Kim (West diz que precisa vestí-la todo dia para que ela não o envergonhe). E, por mais que a crítica dele aos critérios racistas de avaliação do Grammy seja super válida, subir no palco e humilhar uma artista mulher por causa disso não é, independentemente de quão ruim seja o disco dela.

E, sim, o sucesso de Taylor Swift deve-se muito ao fato de ela ser branca e ocorre às custas do obscurecimento de artistas negros. Mas o Famousgate nos alegra não por revelar o racismo da indústria da música, mas sim por ser a narrativa de uma mulher que aprova algo por baixo dos panos, nega tê-lo feito para manter uma boa imagem e depois é desmascarada. Quão parecido isso é com o discurso do "falso estupro"? No fim das contas, não importa o quão degradante tenha sido, ela disse que tinha gostado.

Talvez Taylor tenha sido falsa com Kanye ao telefone. Talvez ela tenha sido sincera durante a ligação, mas depois decidiu se distanciar do caso com a repercussão negativa sobre a letra. Misoginia vinda da parte de homens negros tem uma tendência maior a ser criticada, condenada e até mesmo falsamente atribuída, e Swift pode ter se aproveitado disso.

Talvez ela, insegura, tenha de fato se sentido lisonjeada pela atenção de um homem celebrado na indústria musical que até então a havia apenas humilhado publicamente e desprezado. Talvez ela estivesse ansiosa por agradá-lo, não percebeu o quão negativa a letra era, e após a repercussão, se arrependeu de ter aprovado o material. Ela tem esse direito. Ela aprovar a letra anteriormente não quer dizer que ela não possa ter mudado de ideia ou se sentido mal após ver o resultado final. 

O que quer que tenha acontecido, Taylor e sua equipe escolheram mentir para protegê-la, e isso foi o que minou a credibilidade da cantora. As mentiras e as diferentes versões dificultam também entender o motivo pelo qual ela agiu, e como mentir não é exatamente bonito, é mais fácil atribuir motivações escusas do que auto-preservadoras. Mas a Taylor que mente e arquiteta a própria imagem não é muito diferente das outras celebridades, Kim e Kanye inclusos. O casal teve mais malícia. 

Os West conseguiram lançar uma música com uma letra extremamente misógina fazendo referência à namoradinha da América e maior artista pop do ano passado. E, ao expor Taylor como falsa, com a clássica narrativa da mulher que "finge que não gostou", conseguiram escapar do criticismo à letra. 

Agora o foco está na história que nós gostamos: a queda de uma mulher que, para chegar à fama, hipocritamente criou uma imagem irreal de si mesma.

A celebração ególatra de Kanye em Famous não se tratou apenas de contar vantagem ("Eu tornei aquela vaca famosa"): com o Famousgate, West provou que tem a capacidade de fazer e de manchar carreiras. 

Caberá a Taylor conseguir provar a capacidade de renovar a dela. Contra ela, um público que adora ver mulheres caírem.

Agradecimentos a Amanda D. e Cássio Tyrone.

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