Por que não deixamos Britney Spears envelhecer?





A mídia adora chamar de comeback* toda vez que Britney Spears faz uma aparição pública na qual não esteja vestindo moletom ou comendo tacos. Com o Billboard Music Awards, não foi diferente. Dessa vez, Britney subiu ao palco para receber o prêmio Millenium, entregue para artistas que tiveram conquistas excepcionais na indústria da música (as vencedoras anteriores foram Whitney Houston e Beyoncé).

Isso significa que Britney ganhou esse vibrador dourado da foto de presente (aliás, não seria o máximo se premiações distribuíssem vibradores em vez de troféus? Billboard, anote essa dica) e fez uma performance cantando seus grandes hits.

Embora eu não tenha acompanhado a transmissão da cerimônia, tive o infortúnio de estar online no Twitter enquanto ela rolava e esbarrei nisso:

These pictures of Britney Spears were taken 15 years apart. 😱 #BBMAs pic.twitter.com/LoTrQqnNwE
— Shady Music Facts (@musicnews_shade) 22 mai 2016

(A conta original que publicou o tuíte saiu do ar. O post comparava duas fotos de Britney Spears tiradas com 15 anos de diferença para mostrar que ela não havia envelhecido).

Por algum motivo, o fato de que Spears permaneceu com o mesmo rosto por mais de uma década não é visto com estranheza ou com horror, mas sim como uma conquista, uma manifestação do seu poder e do seu status como diva.

Que Britney Spears continue aparentando ter 20 anos não é sinônimo de "sucesso". É sinônimo de intervenções estéticas, Photoshop, maquiagem. É uma vigilância constante sobre um corpo que cometeu apenas o pecado de existir e seguir o curso natural da vida.

Esse padrão rouba dessas mulheres um direito simples: o de envelhecer.

Para Britney Spears, fazer um comeback não significa produzir algo novo, se reinventar como artista – significa provar que ela é exatamente a mesma de uma década atrás. A partir do momento em que uma artista feminina começa a envelhecer, ela deve provar que ainda é sexualizável, objetificável, jovem. É isso ou cair no obscurecimento, ou pior ainda – no ridículo.

O caso de Britney Spears é ainda mais grave porque não só cristalizaram a cantora no tempo: fizeram com que ela retornasse à infância. É importantíssimo lembrar que desde o colapso nervoso que Britney sofreu em 2008 – e o qual adoramos usar como meme –, a cantora vive sob a tutela do pai. Ou seja, ela não tem autonomia legal sobre si mesma e possuiu zero controle sobre a própria carreira. Tudo isso para não ameaçar o império milionário que a marca Britney Spears virou.


QUANDO O CAPITAL SEXUAL ENTRA EM QUEDA 
Um outro exemplo é Madonna, que calcou sua fama a partir de polêmicas com viés político, seja rolando pelo palco da MTV vestida de noiva e simulando sexo, seja gravando um clipe em que um santo negro é assassinado pela Ku Klux Klan e crucifixos pegam fogo.

A apresentação da Madonna no MTV Music Awards de 1984



Mas, nos últimos dez anos, ainda que sua visibilidade continue alta, a cantora parece incapaz de pautar discussões públicas como antes.

Madonna só teve a permissão de ser polêmica desde que sua subversividade estivesse atrelada à sua objetificação sexual. Assim que começou a envelhecer e passou a perder capital sexual, a única estratégia possível para Madonna sobreviver na indústria da música foi se tornar o mais pausterizada o possível.

A conversa sobre a cantora deixou de ser sobre o que ela estava provocando na cultura agora. Em vez disso, falamos sobre o legado que ela deixou para as novas artistas pop – essas sim, jovens o suficientes para serem sexualizadas.

Não é que Madonna tenha exatamente se tornado irrelevante, é só que sua sobrevivência agora está exclusivamente atrelada a constantemente provar que ela ainda pode ser um objeto sexual.

O QUE É UMA DIVA?
Em vez de celebrarmos o quanto nossas cantoras favoritas se assemelham a estátuas de cera, deveríamos deixá-las envelhecer em paz. Talvez quando uma artista pop finalmente puder assumir rugas e cabelos brancos, saberemos o que é uma diva. Tudo o que conhecemos até agora são mulheres mutiladas.

Leia mais sobre envelhecimento no mundo pop em O envelhecimento da mulher como um fato incomum, texto do blog Vulva Revolução.


*Comeback: retorno. 

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