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O QUE O NOVO DOCUMENTÁRIO FEMINISTA NO NETFLIX TEM A VER COM O GOVERNO TEMER

Chorei durante todo o filme na primeira vez em que assisti She’s Beautiful When She’s Angry. O documentário, recém-lançado no Netflix, conta a história do movimento feminista norte-americano nos anos 60 e 70. Chorei por orgulho de ser mulher, de reconhecer em mim essa mesma força que nos une, e chorei ao perceber que, em mais de 50 anos, pouco avançamos.


As pautas do feminismo ainda são as mesmas, nos Estados Unidos da América e no Brasil: aborto, malefícios da pílula, estupro, desigualdade salarial, discriminação no trabalho, maternidade compulsória, autonomia reprodutiva.


Feministas foram as responsáveis por fazer a pressão que gerou a legalização do aborto nos EUA. Foram elas que pressionaram os fabricantes de anticoncepcionais para emitirem a bula com efeitos colaterais do produto. Foram elas que se dedicaram a estudar o corpo feminino para descobrir o que a ciência não tinha interesse em saber.

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Enquanto os Estados Unidos viveram um boom feminista nos anos 60 e 70, no Brasil, graças à ditadura militar, o movimento não teve a mesma expressividade. Aliás, pouco sabemos sobre as feministas brasileiras. Alguém se lembra de ter estudado sobre isso na escola?


Diferenças culturais e históricas à parte, She’s Beautiful When She’s Angry nos revela lições sobre a luta feminista que colocam sob uma luz bastante interessante o momento político que estamos vivendo agora, no Brasil, com Michel Temer assumindo o o poder.


“Não fale na crise, trabalhe”, nos disse Temer no seu discurso de posse. A frase orwelliana, agora modificada para nos incitar a “não pensar”, já nos encara em letras garrafais em outdoors. Temer não quer que falemos porque, como nos mostra a jornalista Ruth Rosen no documentário do Netflix, “dizer a verdade e falar é uma coisa muito revolucionária”.

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Alguns dizem para termos esperança e confiar nesse novo governo. Ora, só é possível estar em paz se você concordar com duas premissas.

A primeira é de que a história é linear, ou seja, está sempre avançando rumo a melhorias, não importa o quê. Isso, como podemos ver, não é verdade. Assistimos em She’s Beautiful When She’s Angry que A mística feminina, um dos livros que despertou as mulheres brancas de classe média para a revolução, analisava o retrocesso na igualdade de gênero nos anos 50.


Com o fim da guerra e o retorno dos homens para o mercado de trabalho, era preciso fazer o papel de dona de casa se tornar desejável novamente para a classe média. Aí entrou a publicidade de eletrodomésticos, moda e produtos de beleza, assim como as revistas e programas televisivos voltados para o público feminino. O número de mulheres na universidade despencou e a maior ambição que uma delas poderia ter era comprar a torradeira do momento.

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No século XXI, a história não é diferente. O direto ao aborto, por exemplo, tem sido perseguido em ao menos dez estados norte-americanos. Este ano, o Texas criou uma lei com restrições cujo resultado foi o fechamento de clínicas e a dificultação do acesso ao procedimento.


“Você não tem permissão de se aposentar das questões feministas”, explica Virgínia Whitehill, cofundadora da Coalização de Mulheres de Dallas, no documentário. “Você ainda tem que prestar atenção, porque alguém vai tentar te puxar o tapete, e é o que está acontecendo agora.”

Retrocesso é possível, e retrocesso é o que estamos vivendo no Brasil. Isso não significa que o governo Dilma era perfeito (não era), mas que conquistas que já estavam ameaçadas estão em condições piores ainda nas mãos de Temer*.
Foto de Frederic Jean para a Agência Istoé  

















A Empresa Igreja Evangélica tem crescido e consequentemente sua representatividade na Câmera dos Deputados e no Senado. Os pastores se abrigam na suposta laicidade do Estado para acobertar e justificar a imposição do pensamento religioso. Usar a laicidade para destruir a laicidade – é o que provocam com cada projeto de lei, cada oração, cada passagem da Bíblia, cada menção a Deus na Câmara, no Senado, nos palanques e nas comitivas de imprensa. Temer está do lado deles também e saudou o Todo Poderoso no seu discurso de posse.

Quem quer confiar no governo Temer, e para confiar nesse governo é preciso querer, é preciso fazer um esforço de ingenuidade, má fé ou malabarismo intelectual – quem quer acreditar que Temer trará mudanças positivas, e que nosso papel é apenas esperar por elas, está também defendendo essa segunda premissa de que os avanços sociais que tivemos nos foram entregues benevolentemente pelo governo de mão beijada.


A jornalista e escritora Susan Brownmiller, em She’s Beautiful When She’s Angry, discorda: “Vivemos em um país que não gosta de dar crédito aos seus movimentos radicais. Eles não gostam de admitir que as mudanças acontecem porque os radicais as forçam.”


Aos poderosos, não interessa reconhecer que quem propõe os avanços, quem pauta as discussões, são os movimentos sociais, as resistências, as minorias marginalizadas. As bruxas, as putas, as sapatões, as histéricas, as loucas. Os vagabundos, os radicais, os extremistas, os desocupados. São a eles, a quem nos desperta tanto ódio e desprezo, que temos que agradecer por termos os direitos que temos hoje.

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Sérgio Moro agora nos pede para “não ter ódio no coração”, ou seja, que sejamos coniventes com a nossa própria opressão. Quem é feminista já está acostumada a ter o próprio ódio deslegitimado – seja quando nos acusam de “feminazis misândricas”, seja exigindo que continuemos a tratar homens com doçura e servidão, fazendo vista grossa para o sofrimento que nos causaram e causam.  


O que o governo Temer quer é união à força  – isso significa calar as vozes dissidentes e usurpar discursos alheios.

Temer, ao escolher o lema positivista “Ordem e progresso”, o mesmo que está em nossa bandeira, busca vestir seu governo com uma suposta neutralidade, se colocando como porta-voz do Brasil. É a mesma estratégia dos que protestam de verde e amarelo, como se estivessem representando o país e não seus próprios interesses econômicos e partidários. É o mesmo que o homem sempre fez na história, ao se colocar como universal e relegar à mulher o papel do outro, do inferior, do supérfluo – assim como brancos fizeram negros e indígenas.

Mostremos a Temer que ele não é o Brasil, não é as mulheres, não é os negros, não é os indígenas, não é os trabalhadores, não é os transsexuais, não é os gays, não é as lésbicas, não é os pobres. Temer não tem uma voz legítima. Ele sabe disso. Ele tem medo. Não deixemos que ele nos faça ter medo também.

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*Só para não me acusarem de pessimista, em poucos dias desse novo governo, já perdemos o Ministério da Cultura, já tivemos o novo ministro da Saúde, financiado por planos, dizendo a Constituição tem direitos demais e precisam ser revistos, e que a questão do aborto deve ser discutido junto à Igreja. Todos os novos ministros são homens e brancos. O Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos também foi extinto, e teve suas demandas repassadas para o Ministério da Justiça e Cidadania, sob o comando de Alexandre de Moraes.

Alexandre era secretário de Segurança Pública em São Paulo e é responsável pela famosa violência policial do estado, além de constar em mais de 100 processos como advogado do PCC. Quem tiver estômago pode ler o perfil completo dos ministros indicados por Temer aqui.
Mais absurdos (sim!) aqui, aqui, e aqui.

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