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DESCONSTRUINDO MEU NAMORADO





















Quando se é uma garota hétero ou bissexual, às vezes parece que temos que escolher entre ter uma vida amorosa ou sermos respeitadas. Isso diz muito sobre o amor romântico, e isso diz muito sobre homens.


Alguns anos atrás, um rapaz com quem costumava sair foi me mostrar algo em um grupo de Facebook. Acabei vendo um compartilhamento de um vídeo de revenge porn, com prints do cara que divulgou o vídeo ameaçando a mina em questão. Para os membros do grupo, era tudo bem engraçado.

Ele me disse que era chato, mas que a mina não devia ter deixado ser filmada. Lembro da frase dele: "Confiar em alguém é sempre um risco. Não se pode confiar em ninguém."


Claro que confiar em alguém é sempre um risco. Mas esse risco é diferente para homens e mulheres.

Eu o perdoei por ele achar que revenge porn era normal, apenas mais um dos fatos da vida, uma consequência óbvia da ingenuidade e da irresponsabilidade feminina. Foi fácil demais ignorar que entre eu e a garota do vídeo não existia diferença alguma.




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O amor romântico, dizem, é capaz de superar todas as diferenças. De perdão infinito. Sacrifício benevolente. O que se obscurece, quando falamos desse amor universal, é que existe uma diferença entre quem perdoa e é perdoado, entre quem se sacrifica e quem é salvo.

É o gênero. E, ao contrário do que dizem por aí, é uma diferença que o amor não supera: reforça.

Se o amor romântico tudo vencesse, mulheres estupradas durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais não teriam sido abandonadas por seus maridos "humilhados". Grávidas com zika não seriam deixadas à própria sorte pelos pais dos bebês.


Se perdão, cuidado, afeto, carinho são considerados ocupações tradicionalmente femininas, o que significa ser amada por um homem?



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Quando meu parceiro diz "às vezes a mulher tem culpa de ser estuprada", me falam para ser paciente. Tolerante. Respeitar as diferenças. Não precisamos pensar as mesmas coisas sobre tudo. Talvez eu esteja sendo muito radical.

Meu namorado não respeita mulheres. Eu sou uma mulher. Meu namorado me respeita?

Ser feminista, talvez infelizmente, não te impede de se apaixonar. E quando você sente atração por homens, as chances de você acabar se relacionando com um deles são altas. Apesar de ele assistir pornô sadomasoquista. Apesar de ele contar vantagem de quantas já comeu e fazer piada de mulher burra com os broders no bar. Apesar de ele achar esse negócio de discutir a relação um saco. Apesar de ele acreditar que usar camisinha é frescura e que se você fosse realmente "sexualmente liberada" iria topar aquele ménage com sua amiga.

E como já estabelecemos que você é feminista, você observa esses comportamentos. Eles te machucam duplamente, porque sabe o quão perniciosos eles são, e porque estão vindo de uma pessoa amada. Então você assume uma missão: desconstruir seu namorado.


Desconstruir nossos namorados não é militância, não é intolerância política, não é extremismo. Desconstruir nossos namorados é uma estratégia de sobrevivência.



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Por que não abandonamos os homens que amamos? Por que amamos os homens que nos abandonam, nos abandonam a partir do momento em que não nos enxergam inteiras mas como ouvidos constantemente atentos, uma boca que estaria melhor calada, uma buceta que desperta medo e nojo, um abraço sempre aberto, um olhar de aprovação incondicional? Por que esperamos que o afeto masculino se sobreponha à objetificação não só do corpo, mas também das emoções femininas?

Em vez disso, acreditamos que eles podem mudar. E alguns mudam. Mudam porque assumimos o papel de mãe-educadora-terapeuta-professora. Tentamos apelar pela empatia, e falhamos. Apelamos pela lógica, e às vezes temos resultados. Assumimos a responsabilidade de provar para esses homens que não, não somos uma categoria de indivíduos irrelevante, à parte, inferior.


O que pretendo levantar aqui é uma pergunta para qual não tenho ainda resposta e não sei se terei: vale a pena? Enquanto estamos disponibilizando nosso tempo e nos investindo emocionalmente para apontar o que há de errado no discurso desses caras, enviar links de textos que eles, com sorte, lerão até a metade, discutimos incertas, sem saber se estamos mesmo "exagerando" ou não – enquanto estamos fazendo tudo isso, estamos recebendo em retorno a mesma tolerância quanto às nossas falhas? Estamos recebendo a empatia e a compreensão pelas quais ansiamos?


Não é que eles sejam pessoas horríveis. Eles são apenas homens.

E nós, como sempre, perdoamos.


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"Homens pensavam, escreviam e criavam, porque mulheres estavam colocando sua energia nesses homens; mulheres não criaram a cultura porque estavam ocupadas com o amor. A cultura masculina foi construída usando o amor das mulheres, e às custas dele. Se mulheres são uma classe parasítica vivendo da – e à margem da – economia masculina, o reverso também é verdadeiro: A cultura masculina foi e é parasítica, se alimentando da força emocional de mulheres, sem reciprocidade."

A dialética do sexo, Shulamith Firestone




*Revenge porn: expor fotos e vídeos íntimos sem consentimento. 

Mais sobre relacionamentos heterossexuais em: Você não está tão a fim dele e O enigma da blogueira que não conseguia parar de escrever sobre macho.


Texto ótimo sobre o mesmo tema, do blog Versoando: Sobre o desamor do homem e sinônimo de ser humano de cu é rola.

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