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BISSEXUAL? SIM. LESBOFÓBICA? TAMBÉM






















Você só sai com homens? Nos seus textos você só fala sobre ele, ele, ele, perguntou uma garota com quem tenho um relacionamento e que já tinha lido meu blog. Como nós duas ficamos, é óbvio que ela sabia que eu saía com meninas. A dúvida que ela queria despertar em mim era: se eu me definia como bissexual, por que meus relacionamentos com homens eram destaque na minha vida e na minha produção escrita, enquanto às mulheres eu relegava o papel de coadjuvantes? 

Eu sempre meio que soube que era bissexual e saber disso nunca foi um choque para mim – ou então era o que pensava. Desde criança me masturbava pensando em mulheres, gostava de admirar fotos de mulheres peladas e desenhar o corpo delas, enquanto o corpo masculino me parecia desengonçado, feio e só me foi despertar interesse lá pelos 16 anos – e ainda assim, preferia meninos mais "delicados", sem músculos, que se vestissem de forma andrógina. Ryan Gosling sem camisa nunca foi capaz de me dar tesão.


Na pré-adolescência, meu grande ícone era Shirley Manson, vocalista do Garbage. Manson era assumidamente bissexual e cantava sobre isso na música Androgyny, cujo clipe eu assistia repetidas vezes, maravilhada com esse mundo em que meninas tinham cabelo curto igual meninos e se beijavam no banheiro feminino. Admirava uma capa de revista em que a cantora aparecia franzindo para câmera, agarrando os próprios peitos com as mãos, e a manchete: "Shirley Manson: diversão para meninos e meninas" (grifo meu). 

Manson, que falava abertamente sobre sexo, me parecia descolada, moderna, desencanada. Ela era "sexualmente liberada" e, para mim, sua bissexualidade era apenas uma extensão dessa liberdade. 
Manson se casou duas vezes com homens e jamais assumiu publicamente um relacionamento com uma mulher.


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Embora eu me sentisse plenamente confortável com meu desejo por meninas, ele se reduzia a sexo. Eu me imaginava apaixonada por homens, namorando e me casando com eles, e era o olhar e a apreciação deles que eu buscava. Os romances que eu lia sentindo frio na barriga tratavam apenas de casais heterossexuais, e eu não via nada de errado nisso. Me sentia plenamente representada pelas comédias românticas que assistia e me identificava com as protagonistas perdidamente apaixonadas pelos mocinhos.

Mesmo que na vida real eu provavelmente estivesse nutrindo uma paixão platônica pela minha melhor amiga, que namorava um menino, eu nunca me imaginava namorando com ela. Eu nem registrava que minha vontade de estar sempre com ela, de beijá-la, que meu ciúmes e medo de rejeição eram sinais de uma paixão. Eu sabia que sentia atração física e para mim a história acabava aí. Mas se sentisse o mesmo – ou até menos – por um rapaz, com certeza teria planejado nosso casamento com um detalhismo absurdo.

Ao entrar na faculdade, finalmente tive a oportunidade de ficar com meninas, numa proporção bem menor em relação ao número de meninos que pegava. Geralmente acontecia em festas, com amigas bi ou heterossexuais, como uma brincadeira. Naquela época eu já tinha um pouco de consciência política para entender que a letra de I kissed a girl, da Katy Perry, era bastante problemática, mas não conseguia enxergar que, apesar dos textões que lia na internet, eu não aplicava o mesmo julgamento ao meu modo de me relacionar com mulheres.

Contei que era bissexual para meus pais durante uma briga nesse mesmo período. Minha família, embora se esforce para ter a mente aberta, ficou um pouco abalada. Numa tentativa de me dissuadir desse negócio de bissexualidade,  meu pai perguntou: "Se meninos e meninas são iguais para você, por que você não namora só com meninos?". Ironicamente, era exatamente o que eu e muitas meninas bissexuais estávamos fazendo.

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Existe uma ambivalência no discurso das pessoas bissexuais: enquanto algumas insistem em afirmar que a atração que sentem por ambos os sexos é igual, outras reconhecem que diferenças são possíveis e, mais ainda, completamente normais e saudáveis. Um exemplo disso são as definição que pululam pelo Tumblr afora, como "heterromântica". Uma menina pode se definir como bissexual por sentir atração por meninas, e ao mesmo tempo ser heterromântica, no sentido em que ela só consegue se apaixonar e ter relacionamentos sérios com homens. E isso seria ok. Ok para quem?

Se declarar heterromântica faz parecer saudável o fato de que muitas mulheres não podem viver sua bissexualidade plenamente por estarem presas a um ideal de relacionamento heterossexual. É natural essa impossibilidade de sentir afeto e paixão por mulheres? Desde pequenas somos bombardeadas com imagens de casais e famílias heterossexuais felizes, o que é representado como o objetivo final da vida de toda mulher que se preze.

Enquanto isso relacionamentos lésbicos são vistos como nojentos, anormais ou simplesmente invisibilizados – quantos livros ou filmes românticos representam casais de mulheres, e quantas dessas histórias acabam bem? Até que ponto nossa sexualidade "natural" está imune à construção social do que é ser mulher? A alcunha de heterromântica, quando aplicada nós, meninas bissexuais, obscurece a lesbofobia que nutrimos.

O fato é que parte das meninas bissexuais viverá como heterossexual sem nenhum problema. Enquanto às minas lésbicas restam as opções de negar completamente o ideal romântico do amor heterossexual ou de tentar adaptá-lo para um relacionamento com uma mulher (daí as categorias "passiva", "ativa", "butch" e "femme"), nós temos a opção de (tentar) viver esse ideal com um homem. Não é apenas uma questão de ser pragmaticamente mais fácil assumir socialmente relacionamentos heterossexuais – como relatei, aspiramos a essa idealização de forma tão intensa que parece ser espontânea. 

Minha aparência e meu modo de me portar entram na categoria do que é socialmente considerado como "delicado" e "feminino". Meu único namoro oficial foi com um homem. Na maior parte do tempo, eu posso simplesmente ignorar o fato de que tenho uma sexualidade divergente. Eu tenho a opção de fingir confortavelmente que sou heterossexual e de ter essa suposta heterossexualidade reconhecida. Em nome de uma existência confortável, posso obscurecer meus próprios desejos e minha afetividade, não só para a sociedade, como também para mim mesma. Frequentemente, uma mulher bissexual não conhece a própria identidade nem a potencialidade daquilo que deseja.

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Me lembro de uma discussão que era recorrente em comunidades feministas do Facebook. Muitas lésbicas afirmavam ser melhor evitar relacionamentos com bis, porque acabavam se sentindo objetificadas e/ou eram trocadas por homens. Várias bissexuais rechaçavam esses relatos alegando a apócrifa "bifobia". Para quem é bi e está acostumado a ouvir que essa orientação sexual não existe ou é só safadeza, reconhecer criticismo à lesbofobia que perpetua pode ser enxergado como uma ameaça à validade da própria identidade.

Mas será tão absurdo mesmo apontar que várias meninas bissexuais jamais namoraram nem têm a intenção de namorar outra menina, e que passarão o resto da vida tendo relacionamento sérios com homens enquanto fica, sem compromisso algum, com "amigas"? Será tão absurdo supor que séculos de romance heterossexual e lesbofobia tenham sido internalizados e reproduzidos por minas bissexuais? Vamos acreditar então que uma suposta "natureza bissexual" é capaz de nos tornar imunes à socialização heterossexual que recebemos?

Tendo em vista o comportamento de homens héteros, a surpresa é que nós continuemos preferindo nos relacionar com eles. Uma mulher num relacionamento com um homem está sempre sujeita a sofrer uma série de violências, como abuso verbal, agressões físicas, estupro, perseguição. Mesmo nos relacionamentos heterossexuais mais supostamente saudáveis é possível enxergar uma assimetria no cuidado que os parceiros têm um pelo outro.  Como já falei aqui no blog antes, rapazes não têm a mínima ideia de que nós cultivamos toda nossa identidade para sermos percebidas como atraentes. Para a maioria deles, um relacionamento será sempre sobre as necessidades deles, não sobre as nossas. 

Estou cansada de ver meninas inteligentes e talentosas não só se relacionando com homens que estão aquém da sua capacidade intelectual e criativa, mas também mendigando pelo afeto deles, tendo crises de ciúmes, discussões causadas por comentários e comportamentos machistas, se submetendo a sexo meia-boca e sofrendo com infidelidades, manipulação, mentiras e negligência emocional. Essas coisas não são prerrogativas de relacionamentos heterossexuais, mas vamos combinar que acontecem com uma frequência muito (mas MUITO!!!) maior neles. 

O que pretendo levantar aqui é um questionamento para nós: está sendo de fato tão recompensador assim preterir mulheres para ficarmos com homens?

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Na militância online, estamos tão acostumados a tacar pedras que, às vezes, preferimos não discutir as nossas próprias ambivalências, os nossos próprios preconceitos e como eles se manifestam nos nossos relacionamentos. O problema disso é que acabamos jogando para debaixo do tapete uma série de questões problemáticas que impactam nossas vidas. Nos dissociamos de quem somos de verdade para tentar empunhar um ideal. No entanto, enquanto ignorarmos esse nosso eu que não é assim tão bonitinho e não-problemático, esse ideal jamais vai poder ser alcançado. 

Proponho uma auto-análise para meninas bissexuais: não, sentir atração por meninos e meninas não é mesma coisa. Vamos conversar sobre isso?


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Nota: Esse texto trata da minha experiência pessoal como bissexual e o que percebi conversando com amigas e observando conhecidas. Não é minha intenção ser paladina da experiência universal da bissexualidade. Bissexuais são um grupo heterogêneo, com diversas tendências e comportamentos. Cada um vive sua bissexualidade de uma forma diferente, por isso é importante que elas sejam discutidas. Meu objetivo era justamente mostrar uma vivência que tinha a impressão de não estar sendo suficientemente discutida.

A versão anterior desse texto continha palavras como "a maioria" e "a maioria das vezes", as quais foram substituídas após algumas leitoras as terem criticado por serem generalizantes. Caso você não tenha se identificado com o relatado aqui, por favor, comente! Compartilhe a sua experiência com a gente. 

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Atualização: o site americano Slate publicou ontem (4 de maio) o artigo "Por que tantos bissexuais acabam em relacionamentos heterossexuais?". A autora cita a pesquisa LGBT Pew Research de 2013, segundo a qual 84% dos bissexuais estão em relacionamentos com parceiros do sexo oposto, enquanto 9% estão em relacionamentos com pessoas do mesmo sexo. Embora eu tenha críticas quanto aos motivos levantados no texto para justificar esse cenário, vale a pena a leitura. Aqui, em inglês. 


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Leia mais o que escrevi sobre bissexualidade e lesbofobia aqui: O beijo entre Anitta e Ísis não é tão inofensivo assim. 

Mais sobre relacionamentos com homens, autossabotagem e baixa auto-estima aqui: Você não está tão a fim dele  e O enigma da blogueira que não conseguia parar de escrever sobre macho.

Texto da Sapataria: Hoje é dia da visibilidade bissexual. O que gostaria de dizer às lésbicas?

Sou uma mulher bissexual e não acredito em bifobia, por Gabi Borghi no Maré Feminista

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