Image Map

O ENIGMA DA BLOGUEIRA QUE NÃO CONSEGUIA PARAR DE ESCREVER SOBRE MACHO




















Tenho evitado escrever sobre mim mesma por aqui. Se por um lado me sinto exposta, por outro, acho que ninguém tem mais tem interesse em textos despretensiosos sobra a rotina alheia, o blog morreu etc. Uma das minhas grandes frustrações como "blogueira" (é possível dizer isso sem ironia auto-protetora?) é não me encaixar direito em nenhum nicho – não sou engraçada o suficiente para ser um blog de humor, nem lírica demais para ser uma autora literária, e meu look do dia consiste nas primeiras peças que consigo jogar em cima do meu corpo sem parecer o Kaspar Hauser.

Voltar a falar de mim mesma parece desconfortável, como depois de ficar com alguém em uma balada e não saber o que dizer. Você percebe ter acabado de compartilhar uma coisa íntima demais com uma pessoa que você preferiria que não estivesse ali. Não sei bem se essa foi uma boa metáfora. Norah Ephron é absolutamente contra metáforas, mas ela também acha que manteiga é a cura para todos os problemas da humanidade. E não gostei tanto de When Harry Met Sally. Sabe, o final. Prefiro quando os casais não ficam juntos, porque aí não preciso me sentir triste em comparação por estar solteira.


Vai começar o meu terceiro mês em Milão e, embora não tenha feito muitas amizades, tive uma interessante (meu eufemismo favorito para péssima) incursão no mundo do flerte virtual. Eu já estava há um bom tempo sem usar o Tinder em terras tupiquinis, provavelmente como uma tentativa de finalmente alcançar a individuação, mas aqui não tive escolha. Eu não conhecia ninguém e não falava o idioma local, então ter jantar sozinha no meu apartamento enquanto tinha conversas desconexas com homens pavorosos e para quem  jamais olharia na rua era um pouco reconfortante. A mulher moderna! A mulher pós-moderna! A mulher pós-contemporânea! La finta donna!

Reativei meu perfil do OkCupid!, que é um site de namoro. O legal do OkCupid é que você pode passar horas respondendo questionários que servem para medir a sua compatibilidade com outros usuários, e como sempre estou procurando motivos para adiar lavar a louça, é muito conveniente para mim.

O lado não tão legal do OkCupid! é que, ao contrário do Tinder, você não precisa dar match com alguém para a pessoa poder te enviar uma mensagem. E eu sou uma mulher. Outra coisa chata é sua caixa de entrada ter um limite de mensagens quando você é um usuário não-pagante (sou trouxa, mas não o suficiente para pagar para ser assediada por homens casados na Internet). Então preciso periodicamente ficar relendo as minhas mensagens antigas e apagando elas para receber novas.





Estes são alguns dos recados que recebi, em meio a um oceano de "Ois" e "Como vai?":

Quem é esta linda garota?


Olá, sou o Michele, como está você? [algumas horas depois] E então? [um dia depois] Tem algo errado comigo? [um dia depois] Você devia ter me respondido. Que pena.

Sou um cara alto e atlético com cabelo comprido, algumas tatuagens e também toco baixo. Entre em contato comigo!


Você fuma maconha?

O que te torna imperfeita?

Penis captivus

Oi, estava me perguntando se você gostaria de ter um namorado corno ;)

Também sinto uma conexão espiritual muito forte com o cara que me enviou uma vez por dia, durante uma semana, a mesma mensagem: "Olá, muito sexy… O que você está fazendo em Milão?". Talvez esse tenha sido meu relacionamento mais estável.

Sempre haverá um lugar especial no meu coração para o cara que tentou fazer uma proposta de prostituição, e também para o outro que tentou me convencer a salvar seu casamento ao ter um caso com ele, já que a esposa era frígida. O emoticon sorridente que o perfil PorqueNão69Milão enviou também foi bastante simpático. Bom, com um nick desses você não precisa muito usar mais palavras.

"Você não vai encontrar o que quer usando o Tinder. Esses caras não vão te preencher", diz Martine, minha amiga francesa. Ela está falando de outros órgãos além da minha buceta, como, por exemplo, o cérebro (que não o uso tanto quanto deveria) e o coração (que uso em excesso). Martine veio para cá viver o que teria sido uma grande história de amor não fosse o namorado dela ter terminado o relacionamento para ficar com outra. Estamos tomando alguns drinks no dia anterior do retorno dela para França.


Sou grata pelos meus ex-namorados que me deram assunto para escrever pelo resto da vida

Como Martine passou três anos em um namoro monogâmico – traições do namorado a parte–, ela não fazia a mínima ideia de como funcionava o Tinder e ficou horrorizada quando mostrei. "Mas esses caras são tipo aquele que mexeu com a gente em Monza!" No dia anterior, enquanto passeávamos pela rua de uma cidade vizinha, um desconhecido tentou parar a gente. Quando Martine fingiu não entender italiano e continuou andando, ele berrou: "Cazzo! Sabem o que significa cazzo?" Acho que mesmo quem não é italófono consegue imaginar.

Ser uma mulher heterossexual na pista é sempre um risco (aqui sinto que devo abrir parênteses, dizer que sou bissexual e já tive relacionamentos com ambos os gêneros, mas sou percebida como e minha vivência é primariamente heterossexual. Estou planejando escrever sobre isso #aguardem).*

Primeiro, o risco de ser assediada ou estuprada. Me sinto mal de ter que mencionar isso no que era para ser um texto "leve" e "descontraído". Sim, marco o primeiro encontro em lugares públicos e sempre pondero se o cara deu algum sinal de ser um potencial estuprador, além do clássico "ser homem heterossexual". Sim, quando durmo na casa de algum cara, ou ele na minha, fico com medo de ele tentar abusar de mim enquanto durmo. Provavelmente a única preocupação que um cara tem é a conta do bar ficar cara demais. Para uma mulher, sair em encontros é uma forma de arriscar a própria vida, como já pontuou Louis C.K.

Em segundo lugar, minha sensação é que nós, mulheres que nos relacionamos com homens, estamos sempre nos contentando com menos. Já cansei de ver minas maravilhosas namorando babacas que nem mesmo tinham uma aura intrigante, como numa canção da Lana del Rey. Não. Eles eram feiosos, meio esquisitos (não daquele jeito interessante), sem graça. Por quê? Se eu soubesse, talvez eu mesma já teria desistido de ter uma vida sexualmente ativa.

Eu sinto que os homens estiveram sempre me decepcionando, de uma forma ou de outra. Podia ser o par de cuecas errado ou uma piada racista. Era um gesto que parecia condensar toda a tragédia do relacionamento. E então eu sentia um desconforto, aquele de quem viu demais. Eu queria acreditar que o homem à minha frente era maior do que mim, alguém digno de admiração. Não queria perceber que eu era mais inteligente, mais politicamente consciente, mais engraçada. Não é vaidade minha. É falta de vaidade da parte deles.

Desde pequena me foi incutido de que eu era incompleta e só seria preenchida ao encontrar ele, o grandioso Cara Certo. Minha personalidade, minha aparência física, meu modo de me portar, tudo se resumia a um commodity para fisgá-lo. Eu devia cultivar a mim mesma com o objetivo de me tornar absolutamente atraente. Além da perfeição.

Mas nunca senti o mesmo esforço vindo de um homem. Para eles, parece que existir é o suficiente. No fundo, era essa a verdadeira humilhação que sentia quando levava um fora – não era só ser rejeitada, era ser rejeitada por alguém que era tão decepcionante, tão aquém das minhas expectativas, e mesmo assim me importar.
Eu gostaria de não sentir necessidade de aprovação masculina. De não precisar me sentir "desejada" ou "bonita". De não me incomodar por estar sozinha. Espero, um dia, poder conhecer a radicalidade de ser absolutamente minha.
Sim, eu prefiro muito mais estar com as meninas Do que com meninos como você
💏


*O texto em questão já foi publicado e está aqui: Bissexual? Sim. Lesbofóbica? Também.

Mais sobre bissexualidade e lesbofobia nesse post: O beijo entre Anitta e Ísis não é tão inofensivo assim.

Mais sobre relacionamentos com homens, baixa auto-estima e autossabotagem aqui: Você não está tão a fim dele.

0 comments:

Postar um comentário

 
Mini Rage Face Crying Smiley