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ALÔ, BENZINHO: MUDANÇA DE COLÉGIO, FALSOS AMIGOS E PAIXÃO POR OUTRA


Escrever às vezes parece meditação. É uma forma de encarar a você mesmo, e por um bom tempo não quis fazer isso. Aqui vai a lista de coisas que fiz na última hora para evitar escrever esse texto: arrumar minha arara de roupas, tomar vitamina D, contemplar comer o terceiro pote de iogurte de soja do dia, escovar os dentes, passar Bepantol na cara, pesquisar no Google "Bepantol é vegano?",  ter uma conversa sobre a legitimidade artística da Lana del Rey no Tinder com um rapaz de 21 anos cuja descrição diz "Obviamente estou aqui para foder".


Fiquei dois meses sem publicar nada por aqui, e a pobre coluna do Alô, Benzinho estava abandonada desde abril do ano passado. A minha desculpa é que, em 2015, não me senti em condições de dar conselhos para ninguém. As supostas sabedorias que distribuí nessa página – eu ignorava todas elas e seguia em frente com o que desejava, mesmo sabendo que as coisas iriam acabar diferente do previsto. Ou pior ainda, cometi erros sem perceber, pequenos acidentes cuja significância só fui perceber semanas ou até meses depois. Minha vida amorosa estava uma bagunça. Consegui a façanha de passar por quatro términos com pessoas diferentes, sem nunca ter estado propriamente em um relacionamento com elas.

Profissionalmente a coisa não andou tão bem assim. Eu estava fazendo um estágio muito bacana, mas que me fez perder o tesão por escrever, porque deixou de ser uma forma de expressão para virar uma tarefa. Boa parte do tempo eu me sentia uma máquina de juntar palavras. Como vantagem, não só finalmente perdi o medo de falar no telefone, como hoje prefiro ligar (!) para pessoas (!) em vez de enviar mensagens. Também descobri que o verbo "implicar" é transitivo direto e portanto não se usa com a preposição "em".

Passei três anos tão agarrada a ter feito "a escolha certa", de "não me imaginar fazendo outra coisa" porque não queria encarar a incerteza. Talvez escrever profissionalmente não seja exatamente a ocupação ideal para mim, já que envolve sair de casa com frequência, conversar com pessoas pelas quais não sinto a mínima afinidade e preencher espaços em branco só porque eles precisam ser preenchidos. Talvez eu esteja sendo mimada e tentando evitar aspectos negativos que encontraria atuando em qualquer campo. Talvez eu só tenha que ficar me sentindo assim por um tempo, e depois vou me sentir bem,  assim, bem de repente, porque essa dúvida não parte de circunstâncias externas e sim de uma movimentação interior e fugaz.
Fiquei tão assustada que acabei fugindo. Fui parar na Itália, para estudar italiano por seis meses enquanto decido o que fazer com o resto da minha vida. Foi um plano que surgiu bem do nada, mas que achei que nunca iria se concretizar. Não é como se eu estivesse indo, só estou comprando as passagens, me inscrevendo no curso e alugando um apê. Só estou tirando o visto. Só estou subindo no avião. E agora estou aqui, mas parece irreal demais. É como se estivesse suspensa em relação ao resto do ano, para voltar e de alguma forma retomar ao que estava vivendo.

É a primeira vez que moro sozinha. A experiência é estranha, porque a casa toda – estou numa quitinete – parece uma extensão do meu quarto. Tenho me fascinado mais por arranjos domésticos do que com o Duomo, como o fogão que solta um vento frio por vários minutos antes de esquentar, ou a máquina de lavar de botões estampados com sinais misteriosamente abstratos.

A maior parte da minha interação com outros seres humanos continua sendo virtual. Rapports no Tinder à parte, tenho me esforçado muito para interagir com perfeição com os caixas do supermercado da rua da frente, o qual visito com frequência. Meu italiano se resume a algumas regras básicas de gramática, vários palavrões e a pedir mais uma sacola plástica, per favore. Hoje na aula aprendemos sobre utensílios de cozinha. A professora disse que eu deveria aprender a fazer pizza para encontrar um marido italiano. Respondi que gosto de ser solteira. Não sei se eu estava mentindo.
De qualquer forma, com oito meses de atraso, resolvi responder às perguntas que estavam paradas no inbox do Ask.fm, como uma forma de reatar com esse blog. Ainda tenho vergonha de ler meus textos, logo após digitar uma palavra sinto ódio pelo quanto ela é superficial ou incompleta, nem engraçada nem sério o suficiente, mas ainda há algo que me move e seria pouco nobre ignorá-lo por medo de falhar. Continuo tentando ter princípios, mesmo que eles estejam escondidos por baixo de uma camada de procrastinação e música pop.

Espero que todo mundo que tenha me pedido socorro já esteja libertado das próprias furadas, mas, mesmo assim, talvez a coluna sirva para quem tenha passado, está passando, ou vá passar por uma situação parecida, ou ainda como uma recordação saudosa das merdas que já fizemos. Então vamos lá.

A timidez é um sentimento muito engraçado. A gente se sente tão pequeno e insignificante em relação aos outros, mas, ao mesmo tempo, acha que todo mundo está sendo enormemente afetado por cada coisinha minúscula feita, como pronunciar uma palavra errado, gaguejar ou ficar quieta por não saber o que responder.

Acredito que uma boa forma de superar a timidez é entender que as pessoas são tão egocêntricas quanto você. Enquanto você está há três horas se remoendo por ter passado vergonha, a pessoa que testemunhou aquilo não vai estar refletindo sobre a coisa supostamente constrangedora que você fez, e sim envolvida nos próprios dramas pessoais.

Em segundo lugar, em geral o que torna as coisas verdadeiramente embaraçosas para é como você se sente em relação a elas, e não as situações em si. Se você se acostumar a atravessar a vergonha para fazer as coisas que te dão vontade, boa parte dos gatilhos para ela vão deixar de te afetar tanto assim. É possível deixar de ser tímido! Outra coisa que você pode fazer é procurar pessoas que também são tímidas e portanto vão te intimidar menos. Você pode também já deixar claro para os outros que está tímido, sente vergonha etc, o que desarma seu público e também te faz se sentir mais confortável.

Em terceiro lugar, escute The Smiths.


A timidez pode te impedir de fazer tudo que você sempre quis fazer com a sua vida.

Acho que você já se conscientizou de qual é o problema, só precisa tomar uma atitude em relação a ele (o que pode ser a parte mais difícil). De fato, se toda vez que você interage com os seus amigos você precisa se esforçar demais, é porque a dinâmica não está legal entre vocês. Mas isso é normal.
Amizades, assim como namoros, também se desgastam. A diferença é que não temos algo tão definitivo como términos, mas você pode ir se afastando aos poucos caso não se sinta mais confortável. Lembre-se de que não tem nada de errado contigo. Pessoas reagem de jeitos diferentes umas às outras, e tenho certeza de que você vai conseguir encontrar amigos que te tratem da forma que você gostaria de ser tratada. É só preciso ter paciência.  

É totalmente natural e saudável estar apaixonado por duas pessoas ao mesmo tempo, então você pode refletir se, pelo acordo monogâmico feito com sua parceira, vale a pena sacrificar um possível relacionamento com essa amiga – caso você tenha chances com ela. Caso não, reflita se você não está se impedindo de viver um relacionamento maravilhoso no presente para ficar imaginando um romance impossível.

Seria bacana você tentar entender porque você está namorando: o que essa pessoa acrescenta na sua vida? E o que você acrescenta à vida ela? Se, durante esse período de análise, você não conseguir enxergar nada de concreto na outra pessoa que te leve a estar com ela, é válido tentar ver se a sua motivação não é só carência mal administrada. Se for o caso, o mais adequado, imagino, seria conversar sinceramente com o sua namorada – e terminar. Estar sozinho não é o fim do mundo.


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