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EU NÃO CONSIGO SER ALEGRE O TEMPO INTEIRO
























Todo dia ao acordar, encaro o encontro entre as poças violáceas debaixo dos meus olhos e a dermatite que se espalha a partir do meu nariz e engulo vinte gotas de vitamina D, um óleo cujo gosto plano e flácido deve ser o mesmo da felicidade. Beirando os 21 anos, decidi que ser feliz não é só mais um ato de estupidez humana, como festas de formaturas e a versão do Zé Ramalho para Knocking on Heaven's Door, mas sim um estado agradável e até mesmo legítimo.

Como alguns de vocês devem suspeitar, faço terapia há um tempo. Em algumas sessões, deito numa maca enquanto meu terapeuta pergunta se aceito desconstruir uma crença que está impedindo minha "evolução pessoal" (Você aceita desconstruir que Oasis é melhor do que Blur?). Da última vez, ele perguntou se eu aceitava acreditar que poderia viver de forma plena e harmônica. Vacilei. Uma existência plena e harmônica parecia, na melhor das hipóteses, entediante.

O mesmo se repete quando vou interpretar alguma tiragem no tarô. Cartas felizes, como o Sol, nada me dizem. Parece não haver muito o que se investigar. Você bate na felicidade e volta, enquanto na tristeza dá para se afundar. A felicidade é aquele cara bonitinho que você pega na balada e não sente muita coisa, mas se contenta por estar gastando tempo fazendo algo. A tristeza é aquele garoto que te deu um fora e a única coisa que você pode fazer é andar pelos corredores da faculdade esperando vê-lo de relance pela porta do laboratório de física.

Talvez por esse motivo, nunca consegui ficar alegre de fato quando alguma coisa boa acontece. Quando passei no vestibular ou arranjei aquele estágio que eu tanto queria, minha reação interna foi um abafado "meh". Mas minha mente irrompe violentamente em reclamações ao menor desconforto, desde a uma postagem preconceituosa no Facebook a um sinal vermelho quando estou atrasada. O negativo me move. O negativo é real.

Como sempre desconfiei da positividade, nunca desenvolvi traquejo social o suficiente para expressá-la. Enquanto algumas pessoas conseguem escrever mensagens congratulatórias sem o menor esforço, essa é uma tarefa que tento evitar. "Parabéns! Tudo de bom :)", ensaio antes de apagar tudo de novo. Parece artificial digitar pontos de exclamação e uma carinha sorrindo quando estou encurvada sobre o notebook, vestindo um camisetão velho e assoando meu nariz.  E que diabo de categorias de coisas estão inclusas em tudo de bom? Essa dificuldade se estende para cumprimentar pessoas no corredor, dar presentes e fazer elogios.

Há duas semanas, viajei para São Paulo. Lá no hostel, encontrei três gaúchos que estavam em crise com seus empregos e marcaram de tirar férias juntos para viajar pelo Brasil. Uma do grupo, Penélope, sentava no sofá com as pernas abertas e o tronco inclinado para frente, enquanto bebia uma cerveja atrás da outra e bradava raivosamente contra a negatividade. Em vez de ler as besteiras do Silas Malafaia e o que havia de errado no mundo, deveríamos gastar nosso tempo consumindo e produzindo coisas bacanas. Esse raciocínio parece simplório e óbvio, mas a complexidade está na tentativa de botá-lo em prática. 

Para mim, destruir é fácil e cômodo. O problema está em construir. Embora aceitar a tristeza pareça mais corajoso do que ser feliz, a felicidade também guarda uma forma particular de coragem. Não ter medo de soar tosco e aceitar que cada palavra que você escreve não precisa expressar a autenticidade da sua alma. É não se levar tanto a sério assim e conseguir dar a cara a tapa. A felicidade banalizada que está por aí é cruel não só por nos obrigar a ignorar os próprios tormentos, mas também fazer com que a gente seja incapaz de acessar profundamente o prazer como afirmativa. Enquanto o positivo for só uma fachada superficial para escapar da tristeza em vez de uma afirmação assertiva, não dá pra ser feliz.

Mas isso sou só eu sendo negativa.

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