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VOCÊ NÃO ESTÁ TÃO A FIM DELE


mas sério pq ele não quer mais me pegar??? tipo qual é o raciocínio??? 

O raciocínio de q ele não quer mais ver a sua cara

O garoto da vez era Ícaro. Dois anos mais novo do que eu, ele tinha o senso de humor de um adolescente de 13 anos e firmava sua validação como indivíduo gostando de bandas obscuras – quanto mais o som se parecesse  com o de uma máquina de lavar emperrada, melhor. Mas Ícaro tinha o rosto de um dos meninos do Caravaggio, mãos bonitas e zero acuidade ao interagir em situações sociais, o que o tornava cativante para mim – alguém que eu poderia consertar.

A primeira dinâmica que estabelecemos era a seguinte: eu era uma garota vulnerável sob o olhar crítico dele, que parecia captar tudo, qualquer detalhe, qualquer defeito. Ele conseguiu encontrar uma má-formação no meu cóccix que eu nem sabia que existia, identificava diligentemente o cheiro agridoce das minhas axilas ("de bala Valda") e apontava as minhas inseguranças com precisão. 






Depois de algum tempo, acredito que a dinâmica se inverteu. Como estava sempre analisando as pessoas para decidir qual reação ter, como sempre temia ser descoberto, Ícaro agia com uma artificialidade transparente e óbvia. Isso me intrigava, era algo curioso, até que passou a ser um tanto estafante. 

Já que era incapaz de ser espontâneo, ele interpretava qualquer fala minha como um estratégia intricada para dizer algo além do que estava sendo dito. O que era um simples comentário ou uma pergunta ele recebia como uma indireta. Ícaro também era emocionalmente confuso, e a forma dele de lidar com isso era se refugiando em argumentos abstratos. Tudo para ele deveria ter um apelo intelectual, aéreo. E eu, por outro lado, sempre me afundei em emoções, para racionalizá-las depois. O que me interessava eram pessoas e relacionamentos, e não horizontes de eventos. 

Depois de cinco ou seis encontros, duas conversas de meia hora no telefone e algumas interações intermitentes no chat do Facebook, fui rejeitada. Nós não tínhamos nada a ver. Ele queria um relacionamento monogâmico, eu não. Ele não gostava de astrologia e eu não gostava de teoria musical. Eu não levava a sério o que ele dizia e ele não percebia quando eu estava usando sarcasmo.
  

Parecia uma decisão sensata e de fato foi. Sempre que estive com Ícaro, alternava entre entretida pela peculiaridade e estranheza do seu comportamento, sufocada pelas demandas emocionais que ele fazia ou simplesmente entediada. Mas a partir do momento em que levei O Fora, entrei em pane. Eu estava perdendo e isso não poderia acontecer. Foi aí que me apaixonei, apesar de nem mesmo gostar dele.





Atribuí a rejeição de Ícaro à imaturidade emocional dele. Ele não estava interessado em um relacionamento de fato, ele só queria alguém para poder mostrar aos amigos e se sentir seguro. Sempre que conversávamos ele menciona com inveja os amigos que tinham namoradas. Inveja de quê? Ele era incapaz de qualquer intimidade emocional, eu resmungava. Embora essa minha percepção estivesse certa, ignorei minha própria imaturidade. Por que eu estava saindo com uma pessoa que não me interessava? E por que só me apaixonei depois de ser rejeitada? 

O que eu não tinha percebido foram as repetidas vezes em que eu demonstrei a Ícaro a minha falta de interesse, falta de interesse que não era consciente nem mesmo para mim. Eu me recusava a alterar minha rotina em função dele, enquanto ele deveria estar sempre disponível. Eu falava do meu ex-namorado com uma frequência maior do que a recomendada pela Organização Mundial da Saúde. Sempre que Ícaro demonstrava alguma espécie de sentimento ou desejo de se comprometer em relação a mim, eu me retraía em um silêncio nervoso ou em uma diatribe contra monogamia e ciúmes.  

O fato é que vejo relacionamentos como uma competição: os perdedores são os rejeitados e aqueles que demonstram gostar mais do outro. Nessa lógica obtusa, eu preciso estar sempre disponível a sair com o maior número de pessoas possível, mesmo que não me interesse por elas. Procuro detalhes que a tornem atraentes para mim, alguma vulnerabilidade a ser remediada, e crio um personagem, capaz de me entreter mais do que a pessoa real com quem estou. Mas também não posso me entregar a nenhuma forma de compromisso, ou estaria perdendo. O resultado é que acabo me ferrando de qualquer forma. 


Richard Hell, autor dessa frase, também devia ter uns relacionamentos muito problemáticos
















No fim das contas, minha resistência a compromisso é menos baseada em uma vontade verdadeira de liberdade, e mais em medo de me prender a uma pessoa que não corresponda à criação da minha mente. Ser rejeitada me permite chafurdar nessa imagem ideal sem risco de compromisso algum. É só quando não há mais nenhuma chance de um relacionamento que me sinto livre para me apaixonar.

Então, obrigada, Ícaro, por ter me enviado em uma jornada afótica de autoflagelação e descoberta. Você me ensinou a ser emocionalmente responsável, embora eu não tenha conseguido te ensinar que música pop não é tão horrível. Tomarei o gelo que você me deu enquanto escuto P!nk sozinha no meu quarto e espero a próxima notificação do Happn. Provavelmente cometerei os mesmos erros, mas com a consciência de que estou errando, o que é um pouco mais reconfortante.

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