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E CONTRA OS CARACTERES BATALHAREI

A carta da Torre no tarô de Dalí

Tenho uma amiga que sonha em viver para pensar e ser paga para compartilhar o que pensa. Eu adoraria ser paga para ficar em silêncio. "Adoro escrever", alguém te confessa com um lampejo de orgulho nos olhos. Quem escreve não escreve porque adora, escreve porque tem um impulso doentio, um impulso de morte, um estalo na mente que te obriga a ir digitando, e cada palavra é um ai!, dói e nunca é suficiente, mas você escreve, escreve, imbecil!, e vai escrevendo até encontrar a insatisfatoriedade mais plena. Ninguém escreve porque acha uma delícia, quem acha uma delícia é porque não gosta de escrever: gosta de encher linguiça.

Sempre achei um porre encher linguiça. Tem gente que encontra o prazer último e uterino em apenas falar para preencher espaço, adora tanto que transforma em profissão, estilo de vida, razão da existência. Eu queria dizer apenas o necessário, mas é tão difícil encontrar a essência exata daquele impulso disforme dentro da gente. É talvez por uma reverência a esse talento que ser forçada a escrever algo apenas por escrever me embrulha o estômago.

E quando você escolher fazer o curso de Jornalismo, está fadada a isso: estômago embrulhado e cabeça pesada. Nessas horas eu tento me motivar lembrando que tenho mercúrio e sol na casa três, lua no meio do céu, nasci para isso, leio a sessão de fofocas de celebridades da Época desde os oito anos de idade, vocês sabem, porém não há configuração astral e reminiscências infantis que transcendam o porre saturnino de ter que escrever para preencher um número predeterminado de caracteres porque sim. E eu nem gosto de café.

Não é como se eu estivesse numa crise, estou só reclamando. Enquanto todo mundo à minha volta parece estar se revirando do avesso para descobrir qual é a verdadeira vocação e o rumo a ser seguido, estou contentada  o que não é o mesmo de estar contente. Acho que finalmente superei a aspiração de me encontrar criativamente naquilo que faço "para ganhar dinheiro", porém não sei se isso é maturidade, conformismo, uma atitude negativa ou uma combinação confusa dos três.

Comprei a ilusão de que é possível "trabalhar fazendo o que gosta", mas quando você nem sabe o que é fazer o que gosta, ou se fazer o que gosta é o que você gosta mesmo, ou se você é de fato bom em fazer o que você gosta, e o que é ser bom em alguma coisa mesmo, hein? O trem aperta. Ai, mas você é muito racional, para de se cobrar, se solta, tá, mas se eu me soltar, e aí? Pra onde vou? Porque não é como se eu estivesse rejeitando um impulso, a coisa é mais complicada, essa coisa é: duas coisas, cada uma me puxando pra um lado, e eu no meio, ou então talvez todas as coisas, todas me puxando para todos os lados, e eu no meio, é um banco de tortura que vai te esticando e tu se rompe todo, então é isso.

E a piada, a punchline, quando chega? Eu sinto que escrevo tentando encaixar piadas, uma aqui, outra ali, talvez eu devesse mencionar o Louis Tomlinson agora, confesso que não acompanho mais notícia nenhuma, o mundo que se exploda, eu estou cansada e vou me regozijar em ser deliciosamente egoísta, deliciosamente sem culpa, ainda que apenas em texto. Então não vou ser engraçada. Nem curta. Mas o texto pra web tem que ser curto & ter gifs & listas & muitas imagens & linguagem des-con-tra-í-da. Onde está a descontração, eu pergunto, se eu não sei sorrir em foto, eu não sei abraçar quem eu não conheço, eu não sei ficar, eu fujo. Eu só sei ser densa, e é por isso que sou fria, e é por isso que eu não dou bom dia, ou eu te ignoro ou eu me afundo junto com você, carne, osso e sangue, mas eu fujo disso porque não quero, eu não quero ter que ficar.

Acabo achando a maioria das pessoas profundamente desinteressantes na leveza delas. Aí escolho sempre o mais difícil, mas ninguém quer lidar com o mais difícil. Eu queria cuidar de você e te ensinar a ser melhor, você queria alguém para postar fotos no Facebook e ter onde colocar o braço quando saísse com os seus amigos, eu tenho horror a isso, tenho pavor de qualquer instituição, porque instituições são ocas, e eu quero densidade. Meu terapeuta diz que sou assim porque quero fugir das responsabilidades, eu digo que sou a pessoa que menciona o terapeuta toda vez que conversa com alguém: mas o meu terapeuta disse. Eu já estou começando a querer que ele goste de mim, me ache uma pessoa incrível, quem faz terapia pra isso? Estou pagando cem contos por sessão para que você me ache maravilhosa. Estou escrevendo esse texto para que você me ache maravilhosa, ainda que trágica, ainda que insignificante.

—Eu não sinto que tenho algo relevante a ser dito, tudo já foi dito antes e tão melhor, e politicamente falando, o que eu sou, politicamente falando? Eu sou mulher, é isso, sabe, mas branca, e não sou pobre, e minha vivência é isso, essas coisas, a pirâmide de Maslow, todas as necessidades básicas supridas, e aí fico brincando de sofrer, de ser vazia, de sentir todas essas coisas no peito, eu tenho sempre um peso no peito, você sabe, sempre sentindo alguma coisa, uma queimação se expandindo, mas no fundo é irrelevante, entende?

–Sim.

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