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TODAS AS PESSOAS QUE EU GOSTO ESTÃO MORTAS



Quando você tem um blog e seus pais sabem acessar à internet, cada texto que você publica é como se fosse uma carta aberta aos progenitores. Assim seus imbróglios virtuais pautam o jantar de domingo, geram discussões acaloradas e unem a família. "E aquela vírgula marcando a inversão do objeto pleonástico, hein, filhona? Arrasou." Então, pais, eu gostaria de dizer: está tudo bem, só estou fazendo charme na internet, podem voltar a assistir o Jornal Nacional.

Aos três leitores que sobraram, preciso falar: estou passando por uma crise. Sei disso porque comecei a desenvolver uma afeição profunda por poesia ultarromântica, coisa que eu achava já ter superado depois de completar o Ensino Médio e adquirir vergonha na cara. Vinte anos! derramei-os gota a gota num abismo de dor esquecimento... Vinte anos!... sem viver um só momento! Álvares de Azevedo morreu aos 20 anos e virgem, algo a que posso apenas aspirar. Como na época não existia Twitter, Azevedo escrevia poemas. Podemos agradecer à web por privar a geração da década de 2010 de um novo gênio literário. Prefiro fazer montagens para revelar o estado da minha alma do que escrever versos.


Vamos aos sintomas. Perdi o tesão em escrever. Não consigo dormir. Quando durmo, não consigo acordar. Cultivo a incrível habilidade de passar longas horas produzindo absolutamente nada. Ler duas frases já me deixa cansada. Parece gripe, mas é só tristeza. Quando se está triste de verdade, tudo parece convergir para aumentar esse grande peso amorfo dentro de você. Comida vira apenas uma massa insossa que serve de combustível para nos sentirmos ainda mais tristes. Dormir sozinho é excruciante. Atividades diárias como acordar e tomar banho parecem impossíveis.

Como as pessoas conseguem existir todos os dias? Elas são especiais. Talvez sejam um pouco estúpidas, você tenta se consolar. Por mais que você chafurde em um ódio profundo de si mesmo e das escolhas que fez, nenhuma companhia parece te satisfazer mais do que a sua própria. Os outros são tão incompletos. Na verdade, você suspeita que eles sejam os responsáveis por essa angústia. É a tensão entre a carência colossal e o desprezo pelos outros 6.999.999.999 humanos com quem divide esse planeta.

De repente, cada mínimo detalhe do universo carrega a potencialidade de um sentido novo. Todas as músicas e todos os livros existem apenas para você. Até mesmo a fan fiction idiota do Harry Styles que você está lendo tem algo iluminador a dizer sobre o seu estado mental. Você cria uma conta no http://harrystylesfanfiction.com. Você começa a escrever fan fiction. Harry Styles é um jovem italiano que trabalha no mercado financeiro, gosta de delta blues e sempre oferece para pagar a sua conta (duas garrafas de água) no bar. Você passa a pular músicas da Lana Del Rey no i-Tunes porque elas não são tristes o suficiente. É como se a tristeza fosse sair de dentro do seu corpo a qualquer instante e engolir o mundo. Agora.

Eu fico assim às vezes, quando não há nada que eu queira fazer, e nenhum lugar para qual eu queira ir, e ninguém de quem eu queira ficar perto. Então você se sente tão solitário. Você se sente péssimo, como um vácuo, com pressão em cima de você, uma pressão de escuridão, e você mesmo – apenas nada.
Eu penso que eu deveria ter feito algo de mim – não sei, um poeta ou algo. Eu vou rir de mim mesmo amanhã por ter pensado isso. Mas eu nasci uma geração cedo demais – eu não estava maduro quando vim. Eu queria algo que não me deram. Falta algo em mim. Eu sou como o milho de uma colheita úmida – pleno, mas mole, imprestável. Eu vou apodrecer (The White Peacock, D.H. Lawrence).

Minha vida é como Sex and The City. Sem o sexo. Nem a cidade. Mas tem a parte em que encaro a tela do meu computador tentando encontrar o sentido da vida e gasto dinheiro demais com maquiagem. Bom. Eu gosto de ser uma casca delicada que encobre um emaranhado complexo de sentimentos. Meu novo hobby favorito é entrar em sites de compras, encher meu carrinho e depois ir eliminando item por item de acordo com as minhas necessidades. Chego à conclusão de que não preciso de nada. Como na vida em geral.

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