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NIETZSCHE PARA CELÍACOS




Perdoa, pai, pois pequei: comi pão. Amiláceo, visguento e absolutamente delicioso em sua glória farinácea. Farinha branca. Refinada. Índice glicêmico 99. Pelo menos pude transferir minha preocupação com a menstruação atrasada para com o tumor que começou a se expandir no meu intestino – minha menstruação desceu alguns dias depois, obrigada. Nunca estive tão feliz em expelir sangue pelo meu canal vaginal.

Folheando o menu de saladas, concluí: "acho que vou comer pão". Meu namorado me encarou de soslaio. "Não vai fazer tão mal assim, certo?" Não, não iria. Eu me alimentava tão bem, super bem, extremamente bem. Bem o suficiente para resistir a um inofensivo pão ciabatta. Mal fiz o pedido e já estava arrependida. Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade. Porque eu conheço as minhas transgressões, e o trigo pecado está sempre diante de mim.


Ainda bem que sou desmemoriada. A vantagem de ter uma péssima memória é que você se perdoa fácil (a desvantagem é que você nunca sabe se está grávida). Outra vantagem é sempre ganhar discussões, porque você nunca precisa responder pelos seus atos. Se você não se lembra de ter feito, não aconteceu. Pelo menos é disso que eu tento convencer meu namorado. Não costuma funcionar.

Agora que sou uma jovem comprometida, minha brincadeira favorita é fingir que estou discutindo a relação. Enquanto ninguém ameaça chorar ou evoca a palavra que começa com Término, não tem graça. É um jogo democrático também: só há perdedores. Acabo de perceber que sou um macho. Despótica com o controle remoto e relapsa com mensagens de texto. A diferença é que obrigo o amásio a assistir Discovery Home & Health. Se eu fumasse charutos e tivesse 65 anos de idade, Lana del Rey se apaixonaria por mim.


Após o Episódio do Ciabatta Tentador, estou de volta à minha rotina alimentar tradicional: ocasionalmente impossível, frequentemente infeliz. Às vezes impossivelmente infeliz. Na verdade, acredito que existe charme no sacrifício e gosto de me ver como uma mártir herbívora. Como muito bem, e não existe alegria maior pra mim do que abacate, tahine e grão de bico. Não juntos. Na verdade, talvez juntos. Eventualmente escapo – pasteizinhos indianos valem o pecado –, mas ignoro com firmeza o pacote de pão integral que descansa em cima do microondas.

Se os medievais acreditavam que até incesto seguido por filicídio era passível de perdão divino, um simples pãozinho não deve me condenar à danação eterna. O que me leva à pergunta: celíacos podem tomar hóstia? A legislação católica é inclusiva com essa minoria social? O corpo de Cristo não deve ser negado aos paranóicos e menos favorecidos geneticamente. Por isso, fica sugestão para uma congregação mais inclusiva e gluten free: chips de tortilla, batatinhas Ruffles ou rodelas de tapioca, a critério do sacerdote. Amém.


Juro que não sou obcecada por comida, mas na semana passada saiu um texto meu para o Quadra 1001 sobre proteína de soja e cinema de vanguarda espanhol. Leia aqui. Para quem quiser saber mais sobre os malefícios do glúten, recomendo esse texto excelente do blog Papacapim.

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