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ESQUECI QUE ODEIO FESTIVAIS E ARRANJEI INGRESSOS PARA VER DOIS QUINQUAGENÁRIOS ESCOCESES PARECEREM ENTEDIADOS





"Deixem suas almas voar alto'', berra o vocalista, um garoto de cabelos revoltos que parece ter quinze anos de idade. Minha alma está de boa aqui embaixo, resmungo sentindo o gosto evanescente da samosa de legumes que comi há alguns minutos na passagem subterrânea do Museu da América Latina. Pingam gotas aciculares que mais irritam do que ensopam.  "Vocês são pássaros. Harmonizem suas almas", aconselha o guru indie antes de deixar o palco. Confesso que minha alma estava bem desarmonizada quando tive que mijar num banheiro químico trajando uma capa de chuva ensopada enquanto um cover pós-rock de Message in a Bottle tocava ao fundo. Essa é a história da minha primeira vez em São Paulo.


São Paulo é lenta. Muito lenta. Estive sob a impressão de me encontrar solidamente presa em emancipação contínua de estar chegando a algum lugar. As pessoas são rápidas, no entanto. Pena que são muitas: corpos resfolegantes se acotovelando, cada um em sua maratona particular, sabotando o outro em um passo, um empurrão, uma pisada no pé. Tive a sorte de chegar no momento em que a cidade registrava o maior engarrafamento de sua história (344 km de filas). Em Barra Funda, éramos prontamente rejeitadas por taxistas. Pegamos o metrô e descemos na estação errada. Nenhum táxi passava. Meus rins doíam. Chovia. Eu odeio essa cidade, minha mente repetia como um mantra. Havia pisado em solo paulista há apenas três horas e já conseguia entender Tom Zé.


Ironicamente, a assimetria do conjunto dos prédios fazia das ruas de São Paulo uma repetição exasperadamente monótona. São Paulo oprime. É uma cidade que não pode conter a si mesma. Cada novo gesto eu tentava decifrar como fruto do caráter paulista. Ao contrário do que prega o senso comum, todos foram extremamente gentis e solícitos, com exceção da mulher que me olhou feio porque esbarrei acidentalmente no seu filho. Mas também passei apenas um final de semana na cidade. Além disso, moro em Brasília, onde as pessoas são bem mais frias, apesar do cerrado. Cada raro "bom dia" recebido em terreno brasiliense é contabilizado por mim como um favor elogioso.


Quando soube que The Jesus & Mary Chain iria tocar no Brasil, não pensei em algumas coisas antes de comprar o ingresso. A primeira delas: festivais são frequentados por pessoas. A segunda: festivais ocorrem em locais abertos. Pessoas, pela definição, irritam – e locais abertos, pela definição, não têm teto. Ao chegar no Museu da América Latina, onde o festival aconteceu, fui recebida com uma chuva insistente. Meu guarda-chuva foi confiscado, possivelmente por ser uma arma letal e não um acessório de proteção contra incidentes pluviais. Tive que vestir uma capa de chuva transparente,  o momento menos elegante da minha existência.


O jeito que a organização do evento encontrou de nos fazer pagar pelos ingressos (que eram gratuitos) foi nos obrigando a assistir as bandas de abertura. Mantive a calma e a elegância observando tudo passivamente. Em algum ponto, tenho certeza que minha cabeça começou a doer de tédio. Um cara próximo a mim urrava "Jesus!" a cada vinte minutos, apesar de ainda faltar umas boas duas horas para os irmãos Reid darem as caras no palco. Suspeito de que ele estava em um delírio paralelo no qual a organização do evento anteciparia o show após ouvir seus berros de clamor.

Quando o Mary Chain finalmente adentra o palco, não tenho mais joelhos. De cansaço, não de emoção. Percebo a finalidade letal dos guardachuvas. Gostaria de espetar as mãos de cada uma das pessoa que levantou um smartphone naquele momento. Lembram quando fiz uma defesa apaixonada da tecnologia? Esqueçam aquilo. Queimem celulares. Não sou obrigada a assistir a cabeça pixelizada do Jim Reid na tela do seu aparelho para que depois você possa carregar o vídeo no Youtube, onde ele terá 63 visualizações acidentais de fãs desavisados.

Jim passou a maior parte do tempo digladiando contra o ar com o suporte do microfone. Nos intervalos, murmurava um agradecimento ou outro. Will erra três vezes. Na primeira, Jim aponta para ele qual nota tocar, se vira para o público e pede desculpas perfunctórias. Na segunda, dá uma risada. Na terceira, pede para a música parar, contundente. Era como se nada pudesse de fato afetá-lo. Algum homem atrás de mim reclama dos erros. Levo como uma ofensa pessoal. Reviro os olhos. Estou plenamente certa de que sou a única fã de verdade nos 84.482 metros quadrados. A atmosfera de show de estádio contrasta com a música. Esse som é pra você ouvir no seu quarto. É tudo grandioso demais para ser sublime.


Me empolgo mais com as multidões nos metrôs do que no show. Sou uma garota urbana. Ando com a cabeça erguida e sem visão periférica. Quero tatuar a malha do metrô paulista no meu corpo inteiro. No quarto do hotel, peço delivery de comida chinesa, uma das poucas opções veganas, me enrolo no cobertor e assisto Ingrid Stefanelli bradar contra os justiceiros e a onda de linchamentos. Na manhã seguinte, encontro um pedaço de frango solitário no meu arroz frito. Suspiro. O horror é contido.

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