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TODO DIA EU TENHO QUE CHORAR UM POUCO

***Esse texto se trata exclusivamente de cisgêneros e descreve experiências sexuais e genitais.***

Nada me deixa mais dolorosamente consciente do fato de ser uma garota do que uma roda composta apenas por homens. Exceto, talvez, cólicas menstruais. Aos doze anos, não penteava meu cabelo e meu rosto era tão harmônico quanto um Picasso pós-naturalista. Era então alocada para sentar sempre entre os moleques falastrões, pois até as professoras do Ensino Fundamental sabem que nada é mais desinteressante para um menino em busca de afirmar sua heterossexualidade do que uma mulher feia.

Passei boa parte da minha sétima série ouvindo conversas sobre as garotas "mais gatas" da sala e fingindo não perceber que eles sorrateiramente mediam o pau dentro da calça com uma régua para compararem as medidas entre si. Durante uma aula no laboratório de Biologia, um deles queria que eu fosse ao banheiro, olhasse minha vagina e desenhasse ela para que ele pudesse ver como era. Enquanto a professora de Geografia explicava o surgimento do Mercosul:

Você faz pensando em alguém?, ele indica com os olhos as meninas do lado de lá
Não, cara, não.
Eu faço.

E fui atingida pela consciência de que jamais nenhum daqueles pré-adolescentes remelentos iria esfregar seu pau pensando nos meus peitos nascentes enquanto Warrant tocava no mp3. Naquela época, isso era uma pequena tragédia. Se ser uma garota significava Atiçar Os Homens, eu estava falhando miseravelmente naquilo que obviamente era meu chamado na Terra. Restava-me apenas escutar Leoni Acústico MTV enquanto sonhava com romances intricados e levemente castos.

Literatura adolescente me dava a segurança de ser uma garota que lia, uma garota inteligente, diferente das outras e que meu dia iria chegar, embora eu não esperasse nada de um rapaz além de um maxilar largo e mechas castanhas sebosas jogadas na testa (sebosidade sempre foi um grande turn-on para mim, como vocês podem ver).

Hoje, embora não pareça, penteio meu cabelo e dominei com certa dificuldade a arte de usar maquiagem (se você não consegue identificar seu rosto, está no caminho certo). A insegurança, porém, permanece. A única diferença entre uma roda de garotos de 20 anos para os de 12 é que eles já aprenderam a usar desodorante.

O planeta é um grande corpo celeste que orbita em volta de uma só coisa: o Pau. Existem grandes diferenças entre o pau e o Pau. O Pau está constantemente duro, pronto para violar qualquer buraco, é um espartano. Coitado do pau. Torto, murcho, falível e falho, ele é a negação do Pau, o anti-Pau. O homem que brada para contar vantagem sobre quantas comeu não assume nem pra si mesmo que tem pau. Me lembro do cara que, depois que a gente transou, cobriu seu pau mole com uma toalha. Se o Pau deve ser mostrado para o maior números de observadores possíveis (voluntários e involuntários), no chat do Omegle, da janela do apartamento, no ônibus e no Snapchat, resta ao pau permanecer escondido, recôndito, inobservado.

A melhor coisa que ouvi no pós-sexo foi: "Qualquer coisa te arranjo um Cytotec".

Em meio a latas de cerveja e discussões sobre Whey, estou ocupada demais tentando fazer piadas escatológicas e me preocupando se o meu batom está borrado e a luz desfavorável. Percebo, em retrospecto, que a raiz do meu desconforto é a mesma da ansiedade deles. Enquanto membros do sexo feminino continuarem sendo encarados como apenas uma foda potencial, e o pau uma fonte que espirra porra ininterruptamente, não há outra possibilidade que não ansiedade e desconfiança. Sob essas circunstâncias, não pode existir intimidade. E isso é muito triste.

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