Onde os artrópodes não têm vez


100% sem noção

Agir de forma madura nunca foi o meu forte. Uma barata na cozinha, por exemplo, é algo que me paralisa completamente. Em vez de simplesmente buscar um chinelo e resolver o negócio ali mesmo, à la John Ford, subo em cima da cadeira e encaro o teto à procura de um sinal, uma solução, um suplemento vitalício de Raid. Não encontro outra resposta que não seja acordar a minha mãe, às três da manhã de uma terça-feira.

Aliás, acordar minha mãe costuma a solução para muitos dos meus problemas. Já contei para vocês que toda vez que ela se atrasava para me buscar na escola eu ficava chorando na sala da diretora? Acredito que esse medo de abandono hoje se manifeste no meu pavor em ter minhas solicitações de amizade rejeitadas no Facebook. Minha imaturidade também está na incapacidade de responder e-mails ou atender o telefone, uma vez que considero inviável qualquer forma de comunicação que não permita o uso de emojis.


O fato é que os anos vão passando e a gente acaba aprendendo que a louça não desaparece magicamente da pia. Porém, embora eu consiga lidar com certas coisas como marcar consultas médicas ou pedir notas ficais, outras permanecem um eterno emaranhado de espinhos. Sair em encontros, tal qual lavar a roupa na lavanderia ou dormir de pijama (sério, pra que fazer alguma coisa vestido se você pode fazer isso pelado?), era algo que eu imaginava apenas acontecer com personagens de seriados americanos.

Na minha adolescência, as interações românticas que eu tive se limitavam a avaliar pênis alheios no Omegle Video. Os garotos do colégio eram extremamente desinteressantes (o sentimento era recíproco). Meus professores estavam mais próximos de um comediante ruim de stand-up do que do Michael Vartan. Passava o dia em casa, confusa e incrédula, assistindo comédias românticas como quem lê a Nova Trilogy do Burroughs. Agora, neste limbo entre adolescência e fase adulta, posso confirmar: as pessoas saem em encontros. Que maduro.


Porque elas fazem isso, porém, vai além da minha compreensão. Toda vez que eu saí num encontro algo muito ruim aconteceu depois, frequentemente envolvendo a minha vagina. O problema é que nunca me sinto tão consciente do fato de ser mulher quanto num encontro. Provavelmente porque apenas saí com homens (lesbianismo político será a meta de 2014, juro). Sonho com uma realidade paralela na qual todos seremos apenas bróders que se pegam.

Todos esses rituais da paquera me dão nos nervos. Você pode falar palavrão e não, não precisa enlaçar a minha cintura enquanto andamos. Posso comprar meus próprios ingressos, abrir minha própria porta do carro etc. Acreditem, tem gente que ainda se oferece pra te buscar em casa, embora more no outro lado da cidade. Aparentemente muitas meninas curtem, eu só me sinto incomodada. Você faria isso pelo seu amigo? Então por que faz por mim? Aliás, o ato de sair de casa já é algo delicado em si. Sempre tem aquelas pessoas encontradiças que nunca sabemos se devemos cumprimentar, além do risco de acabar embaixo de uma iluminação desfavorável (o terror, amigos, o terror). Por que ninguém me chama pra ficar em casa vendo tevê? Já vi tantos filmes que não queria e assisti tanta gente beber e conversar sobre nada. 

Aí nos encontramos em um impasse. Como chamar alguém pra sair sem impor logo essas regras idiotas de hômi-mulhé? Juro que só quero algum contato físico enquanto o Clinton Kelly me diz quais são as  calças mais adequadas para usar com mocassim. Não quero conhecer a mãe de ninguém (de família já basta a minha), muito menos ter que ficar trocando bilhões de mensagens por dia. Prometo que não invento apelidos idiotas e minhas reclamações se limitam a textos passivo-agressivos na internet, como esse.

Assim como no episódio da barata, limito-me a encarar o teto no aguardo de uma epifania. Ou a enviar stickers de coelhinhos comendo salada no chat, na esperança de que o possível amásio entenda a paralinguagem universal do Facebook. Enquanto isso, colegas solteiros, lembrem-se dos versos do Drummond sobre sair em encontros



Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.

E nunca, por favor, nunca mencionem seriado algum. Nem Breaking Bad.

Veja mais em Manual prático para conversar com homens e Todo dia eu tenho que chorar um pouco.

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2 textões:

  1. Sobre encontros, Drummond também escreveu:

    Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam...

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    Respostas
    1. drummond deveria ter tido uma daquelas colunas de conselhos amorosos, teria ajudado muita gente

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