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É QUASE IMPOSSÍVEL CONCILIAR AS EXIGÊNCIAS DO MERCADO DE TRABALHO COM AS DA CIVILIZAÇÃO


"E você estuda pra fazer o quê?"

A pergunta veio de um flanelinha no estacionamento do Carrefour. Quando digo jornalismo, ele me olha com desgosto e responde: "Faz isso não, véi". Ao perceber meus olhos vazios suspensos no ar e mãos trêmulas, emenda: "Faz, faz sim". Depois de ser aconselhada a não namorar, porque "homem só pensa em fuder" (o cara era sábio), parto com a consciência intranquila. São tempos difíceis, amigos. Aqueles que cursaram Introdução ao Jornalismo podem confirmar. As aulas consistiam em visitas de jornalistas, que aproveitavam a uma hora e meia disponível para chorar pitangas. O salário é baixo, você tem que fazer tudo sozinho, a rotatividade é alta etc, etc. Aliás, você não precisa ser da área para saber da verdade. Numa festa, um estudante de Engenharia Civil recebeu minhas aspirações jornalísticas com um riso de escárnio e as palavras peremptórias: "Cara, o jornalismo morreu".

Morre o jornalismo mas não morre a minha persistência no erro. Como vocês já sabem, seja ele sempre deixar o guarda-chuva no carro ou apertar o botão de soneca do despertador, o erro é uma constante em minha vida. O fato é que, enquanto meus colegas de curso migram para as áreas mais diversas e os que permanecem possuem um caso grave de Communis opinio acuta, mantenho-me firme em minha escolha de me degradar profissionalmente o máximo possível. Não penso no dia amanhã. Tenho certeza que sairei da faculdade com um diploma na mão e um futuro brilhante pela frente. Recusarei ofertas de emprego importantes. Grandes veículos implorarão por uma coluna minha em qualquer lugar, fica a meu critério. Recusarei, pois tenho dignidade e um senso ético apurado. Me mandarei para o norte da Itália, de onde tomarei gelato de frutas e psicografarei análises críticas reveladoras da sociedade pós-contemporânea. O salário será tão infinito quanto os personagens do Stephen Chbosky.

Foi aos nove anos que, lendo a coluna de fofocas da Época dos meus pais, senti um chamado. Meus progenitores, que acreditam que todo mundo que faz jornalismo apresentará o Bom Dia DF, foram ingênuos o suficiente para incentivar minhas ilusões. Dez anos depois, percebo que o mundo do jornalismo é um lugar úmido, triste e feio, mas simplesmente não consigo abandoná-lo. Cada tapa é como um beijo. Ainda acredito que um dos grandes males do jornalismo é os jornalistas. As coisas que sou obrigada a ouvir, seja de estudantes ou jornalistas formados, queridos, não estão escritas (na verdade, infelizmente estão, e em veículos de grande circulação). Colegas, se esforcem. Leiam. Eu sei que é difícil, mas pelo menos tento. Intercalo a obra completa de Freud disponível no Pensador com as notícias de celebridades do Jezebel (alguém me tira daquele site). Minhas Piauís dos últimos dois meses ainda estão no plastiquinho (juro que leio e gosto, gente. Às vezes até mesmo entendo).

É claro que sabemos o último single da Selena Gomez supera qualquer coisa que o Miles Davis possa ter produzido, e que Guimarães Rosa não é essa coisa toda, mas vamos fingir. Nessa vida é preciso ter jogo de cintura, paciência e muita empatia. Empatia, aliás, é coisa que falta. Pensem duas vezes antes de reclamar dos motoristas em greve e não das condições de trabalho horríveis pelas quais eles passam. Pensar é chato, mas com força de vontade podemos ir um pouquinho longe. Sei que estou soando prescritiva, mas podem ter certeza que sofro dos mesmos problemas. Às vezes é preciso nos olhar no espelho e assumir que somos uma droga. É difícil ter que reconhecer defeitos nas pessoas que mais amamos (nós mesmos), mas crescendo nos tornaremos pessoas mais amáveis e teremos mais motivos para estarmos eternamente apaixonados.

Fica aí um texto inspiracional. E nem mesmo mencionei minha vagina.

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